sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sociedade das Imagens Meramente Ilustrativas

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 30/10/2009 no link:
“O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou” [Flávio Gikovate]
Se pensarmos em como nosso século a todo instante nos coloca diante de mudanças – numa soma de rapidez + excesso de informação + mecanização da vida – com vistas a uma geração cada vez maior de recursos financeiros para satisfazer nossos desejos que são cada vez maiores, menos alcançáveis e facilmente descartáveis, vemos que no campo dos relacionamentos isso acontece mais ou menos da mesma forma.
Se pensarmos que a palavra que determina a agilidade com que a vida deve ser conduzida é a “pré”, ou seja, onde tudo deve ser comercializado pré-preparado, pré-moldado, pré-montado, e posteriormente consumido ou descartado logo que adquirido, empurrando-nos a acreditar que toda a obsolescência programada da vida – onde nada é para sempre, tudo deve ser trocado – é natural e deve ser encarada como um curso imutável, entenderemos o porquê do campo afetivo também estar fadado ao fim com maior facilidade.
Toda essa falta de tempo faz com que a grande maioria das pessoas dedique uma pequena parte à aprendizagem nas mais diversas áreas da vida e posteriormente a uma entrega maior a aspectos menos relevantes e quase sempre inúteis.
Observando algumas redes sociais de internet, nos damos conta de que elas funcionam como uma grande vitrine na qual as pessoas se expõem mais ou menos como produtos – toda regra tem exceção – pois, em geral elas selecionam umas às outras pela imagem que é apresentada, sendo que a maioria não preenche os perfis - não descrevem como são, do que gostam, etc. - e, os que observam geralmente não se importam com isso, já que o primeiro e fundamental no caso é encher os olhos - o estereótipo físico.
Não é que a beleza não faça parte; e é exatamente isso que deve ser entendido: ela é uma parte e não o todo, e não pode ser capaz de satisfazer alguém completamente, simplesmente por ela mesma. E talvez seja exatamente por isso que os relacionamentos estejam tão fadados a um fim; pelo fato de as pessoas se prenderem unicamente à imagem, esquecendo que, assim como já aconteceu conosco alguma vez na vida, de olhar uma embalagem de algo comestível num supermercado, se sentir extremamente seduzido por ela e principalmente pela imagem estampada do que haveria no conteúdo e, ao abrir, se decepcionar com o que o havia dentro, também acontece quando nos prendemos apenas uma a “casca” esteticamente agradável sem avaliar o conteúdo.
Muitas pessoas reclamam – alguns pesquisadores até afirmam – que o fim dos relacionamentos ocorre por falta de diálogo. Por um lado, isso pode ser entendido como verdade se alguém não for aberto a conversas. Porém e mais importante que dialogar, é primeiramente “conhecer”. E aqui isso deve ser entendido como toda forma de conhecimento, pois é impossível estabelecer um diálogo com alguém que não entende absolutamente nada de qualquer assunto importante e pior, quando insiste em opinar de forma insistente, mesmo tendo consciência da própria inexperiência.
Esses diálogos não se resumem apenas a “discutir a relação”, também se aplicam a conversas rotineiras sobre qualquer coisa. Conversas banais durante uma refeição, enquanto ambos compartilham a arrumação da casa ou fazem uma boa caminhada juntos, conversas que se estabeleçam no trajeto de carro que é feito até o trabalho, ou quando chegam dele, mesmo que cansados.
São essas pequenas conversas em momentos simples da vida que vão fazendo com que enxerguemos toda agradabilidade que elas nos proporcionam e que, aos poucos vão sendo convertidas em maiores diálogos, até atingirem um nível de profunda necessidade de partilhar tudo aquilo que pode ser explicado por meio de palavras e gestos.

E é somente quando entendemos todo o poder que as palavras possuem e toda a magia que uma boa conversa desperta dentro de nós e a mudança que gera num relacionamento quando duas pessoas se reconhecem pela forma – distinta e inteligente – de pensar, é que seremos capazes de avaliá-las pela essência que possuem, nos libertando dessa sociedade de “imagens meramente ilustrativas”.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Em Tempos de Crise Interior a Faca e o Queijo são só Detalhes

Texto publicado no Jornal Vale do Aço em 23/10/2009

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20091023/carrega_pag12.htm

Problemas, decisões, escolhas, opções, ações, iniciativas, abdicações, aceitações...
Passamos e passaremos a vida divididos por escolhas e decisões. Somos condicionados a procurar sempre o melhor caminho, focando o lado bom e nos preparando para a vitória, ou seja, estamos tão focados nos lucros que esperamos que a vida nos proporcione, que na maior parte do tempo em que nos deparamos com fracassos ou prejuízos, não sabemos como lidar com eles e posteriormente entramos numa espécie de “crise interior”.
Essa falta de “maturidade” para resolver as problemáticas do dia-a-dia nos torna cada vez menos seguros com nós mesmos e com nossa capacidade de avaliar a situação à qual estamos passando – ou passaremos – impedindo-nos de pensar em maneiras menos complexas ou dolorosas de resolver tudo.
Nesses momentos de desespero, tendemos a piorar – e muito – nossa capacidade de ação. Em geral nós atrofiamos nosso tempo, agindo sempre impacientemente, sem pensar, de forma imediatista, avaliando apenas as conseqüências em curto prazo. Isso implica em uma soma dos problemas no futuro: o atual, que estamos resolvendo, e outro que surgirá após a má resolução do primeiro.
Durante esses períodos de crise e desespero sempre aparecem os “gourmets da vida” - um parente distante, um vizinho que nunca convivemos muito ou um amigo não tão íntimo. Esses gourmets são as pessoas que menos convivem conosco, e se acham capazes de resolver todos os problemas da humanidade, se apenas seguirmos suas “receitas”. Geralmente elas impõem suas opiniões e conselhos – convictos de sua experiência no problema -, e ainda com a ousadia de dizer que acham um absurdo que não tenhamos resolvido tal problema, que fazemos muito drama à toa, já que “estamos com a faca e o queijo na mão”!
Mas e aí...? Se fosse tão simples apenas ter uma faca e um queijo, qualquer pessoa passaria por uma crise fácil, fácil. E sabe por que não passamos? Porque é preciso avaliar o problema por ângulos diferentes, ou seja, precisamos primeiro descobrir o tipo do queijo e de faca com o qual estamos lidando, para então entender as possibilidades que ambos nos permitem.
Por exemplo, não adianta termos um pote de catupiry e uma faca de açougueiro – daquelas de desenho animado – que a faca não caberá no pote; se for cheddar fatiado em uma bandeja de isopor, não terá utilidade nenhuma se a faca for elétrica; e menos ainda se for uma peça de parmesão e uma faca de mesa.
Entendido o que são, é preciso ainda saber o que fazer com eles: cortar, passar, grelhar, assar, misturar, tostar, enfim, entender qual o próximo passo para que a decisão que tomamos não nos cause indigestão. Mesmo que o sabor do queijo que temos em mãos e o tipo da faca que usaremos não sejam familiares ou agradáveis ao paladar, é exatamente nesse momento que temos a chance de usar a criatividade e aprimorar nossos gostos e capacidade de ação em situações complexas.
Agora, se realmente não estivermos preparados para manipular nossos queijos sozinhos, o melhor a fazer é chamar amigos e conhecidos que também estejam segurando seus queijos e facas –sem saber o que fazer com eles – reunir na varanda do apartamento ou casa, numa noite quente dessas de primavera, cada um trazendo ainda uma boa garrafa de vinho, um violão, bom humor e disposição para passar a madrugada tocando e trocando os sabores dessas novas experiências de vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Manual de Instruções Humanas

Texto publicado no Jornal Vale do Aço em 16/10/2009

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20091016/carrega_pag12.htm


O século em que estamos nos coloca de frente com mudanças tecnológicas radicais em diversas áreas da ciência, como biotecnologias, nanotecnologias, entre outras. Tecnologias que de um lado ajudam no combate a doenças, no uso consciente dos recursos naturais, etc., e do outro, nos ilude e induz ao que não precisamos e ao que não somos.
Todos os dias recebemos vários spams em nossos e-mails, lemos em outdoors ou em folders de lojas de departamento sobre todo tipo de lançamento em tecnologias que “facilitam a vida”. Várias delas capazes de nos impulsionar a uma necessidade tão latente em possuí-la que, uma vez adquirida, torna-se quase uma “extensão de nós mesmos”, ao ponto de não conseguirmos mais imaginar nossa vida sem ela.
Paralelo a isso vemos uma tecnologia que distancia pessoas próximas e “aproxima” pessoas distantes, ou seja, destrói as relações e casualidades reais, na medida em que nos empurra para uma “casualidade virtual programada”. Por exemplo, todo mundo que utiliza o popular “MSN” provavelmente já passou horas teclando com um amigo e, ao encontrá-lo na rua, simplesmente viu o assunto sumir e se abreviar como num texto digitado na “janelinha” desse programa:
-Oi sumido (a), blz?
-Oi, blz, sumi nd, vc q sumiu.
-Pois eh, dexa eu ir q tô atrasadu... abçs
-Outro... =D
Isso se ambos estiverem dispostos a retirar dos ouvidos os fones de seus MP3, MP4, MP5, MP6, MP...n para então “cuspirem” sua web-linguagem, já que esses aparelhinhos - apesar de nos distrair em uma viagem longa - simplesmente isolam-nos do espaço urbano, ou seja, tornam-nos imunes a todos os tipos de sons e interações com a cidade e as pessoas ao redor.
Todo esse isolamento frente ao às relações sociais é mais tarde refletido num estado profundo de tristeza onde achamos que estamos sós no mundo, que ninguém é confiável, que nunca teremos um relacionamento, que as pessoas são muito complicadas, que tudo deveria ser mais simples ou vir com um manual e blá, blá, blá...
O que muitos não entenderam, é que todos nós nascemos sim, com um manual. Esse manual que só pode ser lido por nós mesmos e cuja única recomendação antes do uso diz: “Que conheçamos a nós mesmos, ‘fuçando-nos’, pois somente quando tivermos uma noção significativa do que realmente somos, saberemos nos apresentar aos outros sem que eles precisem se perder em pensamentos e dúvidas, tentando compreender porque somos como somos”.
E tal qual aprenderemos a nos conhecer, deveremos ensinar aos outros que também se conheçam, para que não fiquem insistindo que os compreendamos, quando na verdade, nem eles mesmos se compreendem.
Todos somos pré-programados, mais ou menos como um robô.
Pré-programados para amar, para perdoar, para ajudar, etc., porém, livres para potencializar essas “funções básicas”, expandi-las cada vez mais, tomando cuidado para não ser consumido por vírus e falhas do sistema – ódio, orgulho, rancor, etc. -, já que somos suscetíveis a isso como uma máquina, e também possuímos um prazo de “vida-útil”.
Porém, diferentes de um robô, não estamos fadados à obsolescência se entendermos que somos capazes de nos “atualizar” sempre, aprendendo com as interfaces desse programa maior chamado vida.
E como toda tecnologia de ponta, chega um momento em que precisaremos realmente ler nossos manuais - para aprender a utilizar perfeitamente nossas diversas funções - como o fantástico – e quase esquecido - sistema de interações afetivas via “bluetooth”: um olhar que envia ao e recebe do outro, imagens, sons, desejos, anseios e vontades.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Receita da Vida

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 09/10/2009 no link:

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20091009/carrega_pag12.htm

Todo mundo que já fez – ou pelo menos tentou – fazer um bolo alguma vez na vida, sempre obteve os seguintes resultados antes de conseguir fazer a receita exata, ou desistir no meio do processo: ou queimou, ou solou, ou não cresceu, ou faltou sabor, ou ficou demasiado doce. Os motivos são vários e nunca a culpa é do cozinheiro, ou seja, nós somos sempre “experts” no assunto e o problema está em algum ingrediente colocado na medida errada, nos utensílios que não eram os ideais, na cozinha, etc.
Isso quando não resolvemos “quebrar” a receita e fazer somente a metade achando que facilitará o processo, economizará nos ingredientes e renderá uma porção menor, porém suficiente para satisfazer a fome naquele momento.
Na pior das hipóteses começamos as substituições por conta própria: se são dois copos de leite e só temos um e meio, adicionamos meio de água para não precisar sair para comprar outra caixinha; se são quatro ovos e só temos três, colocamos uma ou duas colheres a mais de manteiga, e por aí vai.
Durante o processo, se na receita pedem uma forma de 8cm, eu ignoro e pego a que for mais fácil de ser retirada da pilha de vasilhas no armário. Se é pra assar a 180º eu coloco 300º para agilizar o processo. Se o tempo de cozimento é 35 minutos, eu abro o forno de 5 em 5 minutos para olhar se já está pronto.
No final desse processo culinário, o que era para ser um momento de prazer, de relaxamento, de incentivo à criatividade na cozinha, tornou-se uma estressante e chata materialização de uma simples receita/desejo - que deveria ser compartilhada com outras pessoas no momento da degustação – agora inidentificável como algo saboroso, até mesmo comestível.
Não tão diferente do processo de preparação de um bolo, a vida também segue uma receita base. É essa base que faz com que todos tenham a mesma chance de ser feliz durante sua vivência terrena, ou seja, existem ingredientes que são fundamentais para que ela cresça, e outros que dão um toque diferenciado a cada receita, tornando-a melhor ou pior, dependendo da medida adicionada. Por exemplo, o dinheiro; toda receita de bolo da vida pede uma quantidade “x” dele – para alguns é preciso maior quantidade para dar um sabor único, para outros é menor, pois aprenderam a temperar com outros ingredientes. Você pode ter uma grande quantidade dele estocada no armário, porém para ajudá-lo a acrescentá-lo na medida certa, você deve ter uma boa quantidade de humildade, caridade, amor, etc. A ausência dele também torna a receita pouco apetitosa.
Quebrar a receita da vida - dividindo os ingredientes para economizar - também não vão torná-la mais simples de viver e mais fácil de ser saboreada. Nada substitui uma vida completa, com cada produto adicionado na medida certa.
As substituições dos ingredientes ou a realização da receita sem alguns deles devem ser feitas seguindo as dicas de alguém que aprendeu a receita antes de você, ou seja, alguém que sabe fazer um bolo sem ovos, sem leite ou que conhece alguns truques fundamentais para obter o resultado desejado.
Todo esse processo culinário – tanto do bolo quanto da vida ou do bolo da vida – requer paciência e dedicação, mas principalmente entendimento do que você está fazendo para o resultado que deseja obter, ou seja, não é tornar esse momento uma obrigação sem sal e irritante, porque o resultado será sempre o mesmo, mas tornar o processo de vivência da vida uma eterna receita de bolo à qual a todo momento estamos aprendendo com os erros, enquanto mordiscamos alguma fatia deliciosa - principalmente aquelas com muito recheio – junto com as pessoas que mais amamos - como num eterno café da tarde de domingo, na cozinha do sítio.
O bolo representa o resultado de toda uma receita, regada de movimentos, cálculos, criatividade, alegrias, tristezas, etc., no entanto a felicidade não pode ficar restrita somente a ele, mas a toda lembrança desse processo/vivência de materializar desejos.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Emoções ou Emoticons?

Texto Publicado no Jornal Vale do Aço no dia 25/09/09

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20090925/carrega_pag12.htm


O sol ainda não saiu, mas a claridade da manhã já entra pela janela do quarto. Você se levanta e vai ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes. A água está morna pois o dia anterior fez muito calor; e com aquele gostinho de hortelã na boca, você pega uma moedas e vai à padaria. Próximo dela você já é capaz de sentir os cheiros que exalam dos alimentos preparados lá – o cheiro do pão francês, o pão de queijo, o café passado na hora. Cheiros capazes de impulsionar as mais deliciosas sensações, que misturam imagens, sons e sabores.
E tal qual a vasta, porém, tradicional variedade de alimentos ali comercializados existem uma série de rostos que você só encontra na padaria naquela hora da manhã. Pessoas estranhas, mas que não tão estranhas se entendemos que a vida é uma grande comunidade composta de grupos menores. Como os “anônimos” que compram pão de manhã junto com você, existem os que estão sempre no ponto de ônibus, os que estão sempre na sala de espera do dentista, etc. São pessoas cuja rotina sempre esbarra com a sua em determinados lugares e por um curto período de tempo.
Um senhor que toma café todos os dias enquanto você escolhe o que comprar, sempre lhe dirigiu um bom dia que você devolvia, no início, sem entender muito bem o porquê da cordialidade daquele homem, mas que gradativamente habitou-se com o fato, no entanto sem estender a conversa.
Mas é especificamente nesse dia agitado em que você acorda mais cedo, preocupado em resolver tudo durante o dia, que ao chegar ao estabelecimento, você encontra o mesmo senhor entrando. Ele percebe sua presença e diz: - Bom dia! Caiu da cama hoje? E sorri. A frase que soou estranha seria a agulha que estouraria a bolha que até então te impediu de desfrutar das conversas que se desenrolariam todos os dias naquele pequeno intervalo da manhã, e que te levaria a descobrir as experiências de vida fantásticas que ele guarda tão vívidas na memória, e que tem o maior prazer em compartilhar.
Experiências que você nunca imaginou existir nas pessoas anônimas ao seu redor, pois antes de estourar, você possuía uma bolha de proteção que ficava pendurada, murcha, atrás da porta, e que você enchia e vestia todos os dias antes de sair de casa. E por quê? Porque se afastar das pessoas do seu cotidiano? Porque todo esse medo em exprimir um “bom dia” que poderá estabelecer uma relação social real? Porque reunir 999 amigos “anônimos” num site de rede social virtual e trocar suas emoções por “emoticons”? Não estaríamos demasiadamente deslumbrados com essa falsa experiência de convívio social ou mesmo experimentação do espaço real, que a internet tenta nos convencer de que é capaz de suprir, e que nos impede de perceber que estamos nos isolando da realidade palpável?
Abrir um programa que te mostra o mundo via satélite - com modelagens 3D de construções, mapas, relevos e ícones que direcionam para fotos e vídeos - jamais conseguirá transmitir a real experiência de fazer o percurso da sua casa até a padaria, vivenciando os sons, os cheiros, os mínimos detalhes que acontecem de forma efêmera. Pois as experiências diárias necessitam dos movimentos de um corpo vivo, latente, enquanto as virtuais necessitam de um “enrijecimento” desse corpo numa cadeira.
E tal como acontece em relação ao espaço, acontece também em relação ao convívio. Uma comunidade sobre alguma coisa, com um milhão de pessoas que se atém apenas ao título dela para mostrar o que são aos outros, não te proporcionará a verdadeira sensação de trocar idéias e inquietações com uma ou duas pessoas que não medem gestos, caras e bocas para colocar para fora suas opiniões.
Posso dizer que internet e vida real são como refresco artificial de laranja e a fruta. A primeira até consegue aproximar o sabor ao da segunda, mas jamais propiciará o toque ao apertá-la para sugar o caldo, o cheiro cítrico que exala da casca pressionada e chega a arder os olhos, ou a deformação final da fruta para degustação do próprio “bagaço”.

domingo, 13 de setembro de 2009

Hikikomoris do Corpo Contemporâneo

Hikikomori_ é um termo de origem japonesa que designa um comportamento de extremo isolamento doméstico. Os hikikomori são pessoas geralmente jovens entre 18 a 34 anos que se retiram completamente da sociedade, evitando contato com outras pessoas. Em geral, moram sozinhos ou com os pais e se dedicam a internet, mangás, animes e video-games como forma de preencher o tempo e viver num mundo isolado fantasiando a realidade. Os individuos tem seu desenvolvimento social paralisado afetando o processo natural de amadurecimento.
Podemos chamar-nos de “Hikikomori do Corpo Contemporâneo”, pois estamos lutando para conter nossos eus subjetivos diante desse mundo de “eus pré-estabelecidos”, so que ao invés de nos trancarmos dentro de nossas casas, estamos trancando nossas essências dentro de um corpo moldado nas fôrmas do capitalismo.
Nos habituamos a consultar os espelhos quando estamos em dúvida em relação a nós mesmos enquanto aspirantes a fazer parte da sociedade contemporânea, e a jamais consultar nossas idéias ou inquietações quando algo vai contra nossas preferências.
E cada vez que ignoramos uma necessidade de reforma íntima diante dessas indagações sobre qualquer coisa, é mais uma pressão que fazemos sobre nosso verdadeiro eu, com o intuito de colocá-lo escondido e lá no fundo, com medo de ser rejeitado pela minoria - que dita como ser no mundo atual -, mas fortes o suficiente consigo mesmas à ponto de convencer a maioria sobre tais ideais de comportamento.
E chega a ser engraçado como uma grande quantidade de cabeças não pensam, ou seja, somos muito mais fortes sozinhos do que em grandes grupos. Podemos nos comparar facilmente a um bando de guinus na savana africana sendo perseguidos por uma única leoa; somos “15.000” contra um, mas ainda sim, não somos capazes de nenhuma reação a não ser esperar para ver qual será devorado.
Não menos agressivo e cruel, seremos um a um – agora com maior facilidade e mais rapidez – devorados pela leoa dos ideais de felicidade baseados no consumo e na imagem; pouco a pouco nos entregaremos como presas frágeis e doentes – cansadas de tentar fazer parte do topo de cadeia alimentar – ao invés de assumirmos nossa posição de guinus, porém tomando partido de nossa força e capacidade de ação, das potencialidades e subjetividades, entendendo que nossas fragilidades não são erradas, mas sim parte necessária para aprendermos com nós mesmos, novas estratégias de defesa.
Tal qual os hikikomori se encontram nesta situação devido ao alto grau de perfeição exigido das pessoas em tarefas diárias psicológicos de baixa auto-estima e em alguns casos extremos tendências sociopáticas graves, e há casos extremos onde filhos chegam aos 40 anos ainda dependentes dos pais e sem experiência profissional, temos que livrar nossos eus desse estado de exigência de perfeição absoluta.
Nos dando o direito de errar, de assumir nossos medos e imperfeições, nossas impotências diante de quaisquer situações, estaremos explodindo as paredes de aço que seguram esse verdadeiro "eu" que sofre, que ri, que chora, que se encanta, mas sobretudo, esse "eu" que é capaz de se aceitar em suas subjetividades e aprender com elas.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Trecho Sem Cobertura da VIIDA

A vida é como uma operadora de celular qualquer que um dia te enche de promoções e no outro te enche de problemas.
Como numa operadora, existem lugares onde o sinal é mais ou menos forte e outros em que ele nem existe [trechos sem cobertura], ou seja, quanto maior o sinal, melhor a conexão com o mundo, quanto menor, pior essa conexão, e a ausência de sinal significa ausência de conexão com o mundo real, perda da felicidade, do ânimo, etc.
No pior dos momentos, existem aqueles dias de falha do sistema da operadora, a perda de sinal por um longo período de tempo, e como conseqüência, perda de compromissos, encontros, jantares, bares, e todos os planejamentos de dias, anos e uma vida inteira.
E como uma operadora qualquer a vida te cansa; cansa de tantos altos e baixos, de viver essa dualidade inconstante entre bom e ruim, feliz e infeliz, triste e alegre, bem e mau, bom humor e mau humor, eficiência e ineficiência.
E quando ela percebe esse cansaço e que está prestes a perde um cliente, ela “te liga” e oferece planos, serviços e promoções que te fazem acreditar que ela mudou e resolveu pensar melhor nos que usufruem dos seus serviços, ao invés de simplesmente obter os lucros deles.
10x mais, infinity pré, fale o dobro na teotira, e na prática 10x mais ilusão, infinity preso, fale o dobro sobre o dobro de problemas. E assim será a vida sempre: uma sucessão de mentirinhas
para te manter como cliente.
E como uma operadora qualquer, ela vai utilizar todos os métodos possíveis [aparelhos exclusivos, sorteios de viagens, torpedos ilimitados] para manter a mentira de que o objetivo é sempre você.
Ela vai te ignorar mediante quaisquer reclamações, você pode processar, chamar o PROCON que de nada adiantará. Ela vai achar que tem sempre razão, vai sempre sustentar o discurso de que você não leu o contrato direito.
Você se aborrecerá cada vez mais, mas nesse caso não há como trocar de operadora, pois ela é única, é a “VIIDA”, ou seja, ou você aceita todas as exigências e cláusulas do contrato e vive durante o prazo estipulado, ou na pior das alternativas, rasga-o e deixa de usar celular.
O que ainda nos faz manter esse contrato e continuar utilizando esses serviços é o fato de podermos trocar experiências com outros clientes através de outros meios de comunicação [e-mail, conversas, correios].

Talvez todo o problema dessa operadora chamada “VIIDA” se resuma ao fato dela não possuir um SAC [Serviço de Atendimento ao Consumidor]. E se existe, aposto que é cheio de atendentes virtuais que entendem “-Quero aumentar meu ‘plano’”, quando você na verdade disse “-Quero ser ressarcido por esse dano”!

-Desculpe-me Senhor(a), não entendi, por favor, repita o que disse.