sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Substitutos

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 27/11/2009 no link:

http://www.jvaonline.com.br/novo_site/jornal/29/swf/iV67E3-ASEXT.swf


Está em cartaz o filme “Substitutos”, cuja história mostra o ano de 2054, onde grande parte da população usa os andróides substitutos da Virtual Self, que cumprem todos os afazeres do dia a dia inclusive os prazeres da vida e permitem que seus donos jamais tenham que sair de casa. Tais andróides podem ser adquiridos com a aparência física que o comprador desejar, o que acarreta em um mundo de máquinas esteticamente perfeitas e interiormente vazias. No decorrer do filme um terrorista tecnológico, inconformado com a ausência de “calor humano”, passa a assassinar os andróides, causando caos geral. Dois policiais são designados para cuidar do caso. O final da história, só indo ao cinema ou esperando o lançamento nas locadoras.
Na terça-feira 17/11, aconteceu algo que me fez questionar sobre o futuro da humanidade, que o filme descrito na sinopse acima mostra.
Em um supermercado aqui da região fui atendido em um dos caixas, por uma mulher que eu tenho quase certeza que era um andróide, mas um andróide desses baratos, porque ela não vinha com o chip da fala. Ela me encarou com uma total ausência de expressão ou sentimentalidade e, com gestos extremamente robóticos, passava produto por produto no laser. Sem descolar os lábios para se expressar, inclusive sobre o preço total dos produtos, ela me encarou, de modo que eu precisei olhar a tela do computador para me informar e, em seguida efetuar o pagamento. Tão logo ela empacotou as coisas com a mesma frieza, virou-se para o outro ser humano que estava atrás de mim e repetiu os mesmos movimentos superficiais.
Esse é um fato que acontece com uma freqüência muito maior do que imaginamos. Deparamo-nos com situações de austeridade nos ambientes urbanos, tanto por parte de quem atende, quanto por parte de quem é atendido. E apesar de toda essa freqüência, não habituamo-nos à falta de educação alheia e ficamos indignados - mesmo que o fato não ocorra apenas conosco -, pois não temos qualquer culpa sobre o que acontece na vida do outro, como o outro também não tem responsabilidade sobre o que acontece à nossa vida.
Saber separar o mundo interior dos outros do nosso mundo interior em conflito, é o primeiro passo para não começarmos uma guerra com a atendente de call center, ou para que o cobrador insatisfeito com alguma coisa trate-nos com arrogância.
E isso só acontece porque a maioria das pessoas enxerga no outro, senão a culpa pelos problemas ou dificuldades que enfrentam, uma forma de “colocar para fora” toda a frustração, e sentimentos ruins acumulados de situações passadas, no mais famoso estilo “pegar alguém para ‘Cristo’”.
Precisamos entender que aquela atendente do outro lado da linha se encontra em um patamar hierárquico de cumprimento de ordens, e não é responsabilidade dela o fim do plano de seus minutos ilimitados, ou seja, ela apenas está repassando para você as informações que chegaram até ela. Como também não é responsabilidade dos passageiros a insatisfação do cobrador com algum aspecto do seu emprego.
A palavra da vez é “discernimento”, que segundo o Dicionário da Língua Portuguesa significa distinguir, conhecer, avaliar bem, ou seja, conhecer realmente a situação pela qual está passando, distinguir suas próprias atitudes para contribuir com uma resolução ou agravamento dela e avaliar bem o que é de sua responsabilidade.
Discernir significa amadurecer enquanto ser humano, mostrando que você é capaz de pensar e avaliar antes de agir, pois para cada situação existem possibilidades e caminhos para serem pensados. Bem diferente de uma máquina que é programada para dar respostas exatas a possíveis situações de erros - anteriormente imaginados e já programados -, precisamos repensar nossas atitudes frente aqueles com o qual lidamos diariamente, principalmente porque somos de forma direta responsáveis por eles, no momento em que estabelecemos uma relação mínima – de pedir uma informação que seja -, e cabe a nós decidir se queremos receber de volta a mesma austeridade à qual estamos tratando os outros.
Não há nada que alegra mais o espírito, do que começar o dia ouvindo uma saudação cordial de alguém que a pronuncia quase cantando, com um sorriso sincero no rosto.

E antes que os comércios sejam tomados de andróides atendentes – o que acarretará num aumento considerável da taxa de desemprego, pois máquinas não são remuneradas –, e nós mesmos sejamos substituídos por robôs frios, tornemo-nos um pouco melhores ao estabelecer uma relação com alguém, pois se o mundo vai mal, é porque provavelmente seis bilhões de atitudes ruins individuais demonstram que cada um em algum momento contribuiu para que ele se tornasse assim, essa é a lei de causa e efeito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Geyses Anônimas

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 13/11/2009 no link:

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Meios de comunicação de todo o país vem discutindo a alguns dias o caso da estudante Geyse, expulsa da UNIBAN após ser “vaiada" pelos alunos por usar um vestido curto e decotado para ir às aulas.
Como acontece em todos os tipos de assuntos estampados pela mídia, uma parcela das pessoas ficou contra a estudante, outra parcela a favor. Argumentos surgiram e surgirão de ambos os lados e não temos a intenção de acusar ou defender a estudante em questão, mas, desejamos opinar sobre o caso que coloca em cheque a “democracia” na qual juramos que vivemos e principalmente o falso liberalismo do povo brasileiro.
Observando ambos os lados – acusadores e defensores -, nos damos conta de que essa estória de indignação nacional diante de um fato acontece na maioria das vezes quando este ganha 15 minutos de fama. O caso da aluna da UNIBAN é apenas mais um em meio a tantos outros que ocorrem diariamente no país, debaixo dos nossos narizes e pior, quando somos participantes ativos, ou seja, quando nós somos os que “vaiam”.
O que aconteceu com a estudante Geyse foi uma forma de preconceito gerado a partir de um estereótipo criado pela sociedade para “rotular” aquelas pessoas que devem ser encaradas como uma “verruga” – causadora de estranhamento e motivo de vergonha – que precisa ser retirada de qualquer forma e o mais rápido pois, está contaminando o “mundo perfeito”. Os estudantes – que segundo algum quesito, se encaixam nos padrões de seres humanos normais – se sentiram ameaçados com a presença daquela mulher de roupas “inapropriadas” e, rapidamente se sentiram na obrigação de retirá-la do ambiente de aprendizagem - também conhecido como ambiente de educação – e de forma “liberal”, agrediram moralmente a jovem.
Num país cujo cartão postal é o carnaval, ou seja, onde todo tipo de promiscuidade é vista como normal, onde mulheres desfilam nuas, celebridades são flagradas em festas usando vestidos curtos e sem lingerie, onde programas de TV de finais de semana durante todo o dia exibem mulheres melancias, etc. realmente é de admirar o porquê da indignação dos estudantes e daqueles que os apóiam.
Existem assuntos muito mais sérios que deveriam ser encarados com maior indignação do que o caso da estudante da UNIBAN: governo cheio de corrupção, pessoas ainda sem infra-estrutura básica de água, luz e esgoto, crimes hediondos a todo instante, etc.
Se pararmos para pensar, sempre estamos nos esbarrando com essas questões de julgamentos baseados em nossas próprias convicções. Escolhemos aqueles que queremos que sejam “excluídos” da sociedade porque nos achamos superiores e no direito de fazê-lo e, nos ausentando da culpa, influenciamos as pessoas ao máximo a enxergar da forma que queremos.
O caso da estudante chama a atenção para os rumos que estamos deixando que a sociedade tome, ou seja, um mundo que caminha com seres humanos cada vez mais individualistas e menos tolerantes, de pessoas que dizem buscar a paz, mas essa está cada vez mais distante.
Há quem diga que Geyse é a “Maria Madalena” contemporânea, apedrejada com palavras pela multidão indignada com seu comportamento. Resta-nos escolher de qual lado ficaremos: daqueles que “não tem pecados” e atiram pedras o tempo inteiro, ou de Jesus. E quando falamos em escolher o lado d’Ele, em hipótese alguma estamos falando de religiosidade, estamos apenas exemplificando que sempre que estivermos diante de uma situação como essa, temos que ser sensatos o suficiente para olharmos nossas próprias vidas.
E somente dessa maneira, seremos capazes de compreender as diferenças, ao invés de “apontar” para as milhares de Geyses-mulheres, Geyses-idosos, Geyses-crianças, Geyses-negros, Geyses-gays, enfim, todos aqueles que sofrem diariamente com algum tipo de agressão moral e física por preconceito dos outros “estudantes” da uniVIDA.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Plenitude Vazia

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 05/11/2009 no link:

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Nada dá mais prazer do que a sensação de plenitude: em um dia comum para muitos, você acorda, olha para o teto e começa a pensar em quão boa é sua vida. Seu olhar parece atravessar o telhado e sumir no infinito. Não se ouve mais nenhum som externo; nada naquela manhã te distrai enquanto você pensa. É quase uma hipnose esse momento de reflexão da sua caminhada desde o início da vida - dos problemas que já superou, das dificuldades que ficaram para trás, pessoas, instantes, lugares, objetos, etc. tudo “enterrado” bem fundo para jamais voltar à tona.

Você começa a perceber a sua força e capacidade de superação e todos os ganhos que obteve graças à dedicação extra em cada aspecto dessas vivências cotidianas. Não há problemas que não seja capaz de superar, ou melhor, não há um problema sequer à uns quatro dias. A saúde vai bem, obrigado! Mesmo pequenas enxaquecas não são capazes de te tirar desse estado de satisfação mor.

Demorou algum tempo, mas finalmente você entendeu que quando falam que cada ser humano é único, estão realmente falando de um ser “exclusivo” que, diferente de um objeto também exclusivo, jamais poderá ser reproduzido, mesmo pagando por isso, mesmo desejando com todas as forças. E é por entender as potencialidades dessas subjetividades, que os conflitos passaram a ser raros. Você aprendeu a lidar com as diferenças, percebendo que ela é fundamental para que o mundo seja realmente um lugar interessante, e que uma unidade de pensamentos, maneiras de ser e estereótipos, seria algo extremamente chato.

E melhorando sua convivência de um modo geral, você cresceu espiritualmente e passou a perceber maiores vínculos sentimentais com as pessoas ao redor – relacionamentos de trabalho, de vizinhança, de amizade, familiares e claro, amorosos.

Tudo está tão bem e é tão inacreditável que uma sensação de medo e ansiedade subitamente começam a percorrer o seu corpo. O infinito some e o ar começa a ocupar todo o seu interior como se não houvessem mais órgãos dentro de você. É uma sensação tão desesperadora e angustiante que você nem sabe o que fazer. Às vezes chora, rola de um lado para o outro na cama, comprime a barriga. Outras vezes até toma algum comprimido pensando ser uma dor física, mas não é. É um grande vazio que, volta e meia você sente. Um vazio que não pode ser preenchido por essa plenitude atual, porque ele é conseqüência de um ato do passado: lembra quando você enterrou um monte de coisas no fundo da alma, pensando que estava “resolvendo” sua vida? Na verdade você apenas “varreu a sujeira para debaixo do tapete” e, agora que alguém o tirou para lavar, você se viu outra vez diante de tudo que estava escondido debaixo dele.

Pense na lógica de um aterro sanitário: ele resolve os problemas do lixo das cidades num tempo muito curto, e em um determinado momento ele transborda, não há mais como enterrar nada e tudo começa a se acumular na superfície. Além de tornar quase que completamente inutilizável outra vez aquela área, o odor que ele libera durante todo o processo de vida útil acaba gerando doenças e atraindo insetos indesejáveis.

Quanto mais “lixo” você enterrar na sua alma, mais repugnante e insuportável para você mesmo ela se tornará, até chegar um determinado momento em que tudo transbordará e se acumulará na superfície.

E só há uma forma correta de acabar com todo esse “lixo espiritual” que você enterra: é em primeiro lugar procurar um profissional que saiba lidar com isso - Psicólogos, Psiquiatras, Psicanalistas – para então eles te ajudarem a desenterrá-lo e realmente dar um fim.

Como geralmente há muita coisa enterrada, provavelmente vai levar um tempinho até que “tudo entre nos eixos”, mas, todo esforço é sinal de grande merecimento e, diga-se de passagem, a gente faz tanto esforço para conseguir um monte de futilidades que não há desculpa para não se esforçar pela própria saúde mental.

Há, e não venha com a velha desculpa de que esses profissionais são para “gente doida”. Doido mesmo é saber que em pleno século XXI as pessoas ainda criam pré-conceitos sobre isso.

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...” e nada melhor do que aprender com quem sabe fazer a vida um pouco mais bela, não é mesmo?


sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sociedade das Imagens Meramente Ilustrativas

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 30/10/2009 no link:
“O homem é um animal que vai mudando o mundo e depois tem de ir se reciclando, para se adaptar ao mundo que fabricou” [Flávio Gikovate]
Se pensarmos em como nosso século a todo instante nos coloca diante de mudanças – numa soma de rapidez + excesso de informação + mecanização da vida – com vistas a uma geração cada vez maior de recursos financeiros para satisfazer nossos desejos que são cada vez maiores, menos alcançáveis e facilmente descartáveis, vemos que no campo dos relacionamentos isso acontece mais ou menos da mesma forma.
Se pensarmos que a palavra que determina a agilidade com que a vida deve ser conduzida é a “pré”, ou seja, onde tudo deve ser comercializado pré-preparado, pré-moldado, pré-montado, e posteriormente consumido ou descartado logo que adquirido, empurrando-nos a acreditar que toda a obsolescência programada da vida – onde nada é para sempre, tudo deve ser trocado – é natural e deve ser encarada como um curso imutável, entenderemos o porquê do campo afetivo também estar fadado ao fim com maior facilidade.
Toda essa falta de tempo faz com que a grande maioria das pessoas dedique uma pequena parte à aprendizagem nas mais diversas áreas da vida e posteriormente a uma entrega maior a aspectos menos relevantes e quase sempre inúteis.
Observando algumas redes sociais de internet, nos damos conta de que elas funcionam como uma grande vitrine na qual as pessoas se expõem mais ou menos como produtos – toda regra tem exceção – pois, em geral elas selecionam umas às outras pela imagem que é apresentada, sendo que a maioria não preenche os perfis - não descrevem como são, do que gostam, etc. - e, os que observam geralmente não se importam com isso, já que o primeiro e fundamental no caso é encher os olhos - o estereótipo físico.
Não é que a beleza não faça parte; e é exatamente isso que deve ser entendido: ela é uma parte e não o todo, e não pode ser capaz de satisfazer alguém completamente, simplesmente por ela mesma. E talvez seja exatamente por isso que os relacionamentos estejam tão fadados a um fim; pelo fato de as pessoas se prenderem unicamente à imagem, esquecendo que, assim como já aconteceu conosco alguma vez na vida, de olhar uma embalagem de algo comestível num supermercado, se sentir extremamente seduzido por ela e principalmente pela imagem estampada do que haveria no conteúdo e, ao abrir, se decepcionar com o que o havia dentro, também acontece quando nos prendemos apenas uma a “casca” esteticamente agradável sem avaliar o conteúdo.
Muitas pessoas reclamam – alguns pesquisadores até afirmam – que o fim dos relacionamentos ocorre por falta de diálogo. Por um lado, isso pode ser entendido como verdade se alguém não for aberto a conversas. Porém e mais importante que dialogar, é primeiramente “conhecer”. E aqui isso deve ser entendido como toda forma de conhecimento, pois é impossível estabelecer um diálogo com alguém que não entende absolutamente nada de qualquer assunto importante e pior, quando insiste em opinar de forma insistente, mesmo tendo consciência da própria inexperiência.
Esses diálogos não se resumem apenas a “discutir a relação”, também se aplicam a conversas rotineiras sobre qualquer coisa. Conversas banais durante uma refeição, enquanto ambos compartilham a arrumação da casa ou fazem uma boa caminhada juntos, conversas que se estabeleçam no trajeto de carro que é feito até o trabalho, ou quando chegam dele, mesmo que cansados.
São essas pequenas conversas em momentos simples da vida que vão fazendo com que enxerguemos toda agradabilidade que elas nos proporcionam e que, aos poucos vão sendo convertidas em maiores diálogos, até atingirem um nível de profunda necessidade de partilhar tudo aquilo que pode ser explicado por meio de palavras e gestos.

E é somente quando entendemos todo o poder que as palavras possuem e toda a magia que uma boa conversa desperta dentro de nós e a mudança que gera num relacionamento quando duas pessoas se reconhecem pela forma – distinta e inteligente – de pensar, é que seremos capazes de avaliá-las pela essência que possuem, nos libertando dessa sociedade de “imagens meramente ilustrativas”.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Em Tempos de Crise Interior a Faca e o Queijo são só Detalhes

Texto publicado no Jornal Vale do Aço em 23/10/2009

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20091023/carrega_pag12.htm

Problemas, decisões, escolhas, opções, ações, iniciativas, abdicações, aceitações...
Passamos e passaremos a vida divididos por escolhas e decisões. Somos condicionados a procurar sempre o melhor caminho, focando o lado bom e nos preparando para a vitória, ou seja, estamos tão focados nos lucros que esperamos que a vida nos proporcione, que na maior parte do tempo em que nos deparamos com fracassos ou prejuízos, não sabemos como lidar com eles e posteriormente entramos numa espécie de “crise interior”.
Essa falta de “maturidade” para resolver as problemáticas do dia-a-dia nos torna cada vez menos seguros com nós mesmos e com nossa capacidade de avaliar a situação à qual estamos passando – ou passaremos – impedindo-nos de pensar em maneiras menos complexas ou dolorosas de resolver tudo.
Nesses momentos de desespero, tendemos a piorar – e muito – nossa capacidade de ação. Em geral nós atrofiamos nosso tempo, agindo sempre impacientemente, sem pensar, de forma imediatista, avaliando apenas as conseqüências em curto prazo. Isso implica em uma soma dos problemas no futuro: o atual, que estamos resolvendo, e outro que surgirá após a má resolução do primeiro.
Durante esses períodos de crise e desespero sempre aparecem os “gourmets da vida” - um parente distante, um vizinho que nunca convivemos muito ou um amigo não tão íntimo. Esses gourmets são as pessoas que menos convivem conosco, e se acham capazes de resolver todos os problemas da humanidade, se apenas seguirmos suas “receitas”. Geralmente elas impõem suas opiniões e conselhos – convictos de sua experiência no problema -, e ainda com a ousadia de dizer que acham um absurdo que não tenhamos resolvido tal problema, que fazemos muito drama à toa, já que “estamos com a faca e o queijo na mão”!
Mas e aí...? Se fosse tão simples apenas ter uma faca e um queijo, qualquer pessoa passaria por uma crise fácil, fácil. E sabe por que não passamos? Porque é preciso avaliar o problema por ângulos diferentes, ou seja, precisamos primeiro descobrir o tipo do queijo e de faca com o qual estamos lidando, para então entender as possibilidades que ambos nos permitem.
Por exemplo, não adianta termos um pote de catupiry e uma faca de açougueiro – daquelas de desenho animado – que a faca não caberá no pote; se for cheddar fatiado em uma bandeja de isopor, não terá utilidade nenhuma se a faca for elétrica; e menos ainda se for uma peça de parmesão e uma faca de mesa.
Entendido o que são, é preciso ainda saber o que fazer com eles: cortar, passar, grelhar, assar, misturar, tostar, enfim, entender qual o próximo passo para que a decisão que tomamos não nos cause indigestão. Mesmo que o sabor do queijo que temos em mãos e o tipo da faca que usaremos não sejam familiares ou agradáveis ao paladar, é exatamente nesse momento que temos a chance de usar a criatividade e aprimorar nossos gostos e capacidade de ação em situações complexas.
Agora, se realmente não estivermos preparados para manipular nossos queijos sozinhos, o melhor a fazer é chamar amigos e conhecidos que também estejam segurando seus queijos e facas –sem saber o que fazer com eles – reunir na varanda do apartamento ou casa, numa noite quente dessas de primavera, cada um trazendo ainda uma boa garrafa de vinho, um violão, bom humor e disposição para passar a madrugada tocando e trocando os sabores dessas novas experiências de vida.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Manual de Instruções Humanas

Texto publicado no Jornal Vale do Aço em 16/10/2009

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20091016/carrega_pag12.htm


O século em que estamos nos coloca de frente com mudanças tecnológicas radicais em diversas áreas da ciência, como biotecnologias, nanotecnologias, entre outras. Tecnologias que de um lado ajudam no combate a doenças, no uso consciente dos recursos naturais, etc., e do outro, nos ilude e induz ao que não precisamos e ao que não somos.
Todos os dias recebemos vários spams em nossos e-mails, lemos em outdoors ou em folders de lojas de departamento sobre todo tipo de lançamento em tecnologias que “facilitam a vida”. Várias delas capazes de nos impulsionar a uma necessidade tão latente em possuí-la que, uma vez adquirida, torna-se quase uma “extensão de nós mesmos”, ao ponto de não conseguirmos mais imaginar nossa vida sem ela.
Paralelo a isso vemos uma tecnologia que distancia pessoas próximas e “aproxima” pessoas distantes, ou seja, destrói as relações e casualidades reais, na medida em que nos empurra para uma “casualidade virtual programada”. Por exemplo, todo mundo que utiliza o popular “MSN” provavelmente já passou horas teclando com um amigo e, ao encontrá-lo na rua, simplesmente viu o assunto sumir e se abreviar como num texto digitado na “janelinha” desse programa:
-Oi sumido (a), blz?
-Oi, blz, sumi nd, vc q sumiu.
-Pois eh, dexa eu ir q tô atrasadu... abçs
-Outro... =D
Isso se ambos estiverem dispostos a retirar dos ouvidos os fones de seus MP3, MP4, MP5, MP6, MP...n para então “cuspirem” sua web-linguagem, já que esses aparelhinhos - apesar de nos distrair em uma viagem longa - simplesmente isolam-nos do espaço urbano, ou seja, tornam-nos imunes a todos os tipos de sons e interações com a cidade e as pessoas ao redor.
Todo esse isolamento frente ao às relações sociais é mais tarde refletido num estado profundo de tristeza onde achamos que estamos sós no mundo, que ninguém é confiável, que nunca teremos um relacionamento, que as pessoas são muito complicadas, que tudo deveria ser mais simples ou vir com um manual e blá, blá, blá...
O que muitos não entenderam, é que todos nós nascemos sim, com um manual. Esse manual que só pode ser lido por nós mesmos e cuja única recomendação antes do uso diz: “Que conheçamos a nós mesmos, ‘fuçando-nos’, pois somente quando tivermos uma noção significativa do que realmente somos, saberemos nos apresentar aos outros sem que eles precisem se perder em pensamentos e dúvidas, tentando compreender porque somos como somos”.
E tal qual aprenderemos a nos conhecer, deveremos ensinar aos outros que também se conheçam, para que não fiquem insistindo que os compreendamos, quando na verdade, nem eles mesmos se compreendem.
Todos somos pré-programados, mais ou menos como um robô.
Pré-programados para amar, para perdoar, para ajudar, etc., porém, livres para potencializar essas “funções básicas”, expandi-las cada vez mais, tomando cuidado para não ser consumido por vírus e falhas do sistema – ódio, orgulho, rancor, etc. -, já que somos suscetíveis a isso como uma máquina, e também possuímos um prazo de “vida-útil”.
Porém, diferentes de um robô, não estamos fadados à obsolescência se entendermos que somos capazes de nos “atualizar” sempre, aprendendo com as interfaces desse programa maior chamado vida.
E como toda tecnologia de ponta, chega um momento em que precisaremos realmente ler nossos manuais - para aprender a utilizar perfeitamente nossas diversas funções - como o fantástico – e quase esquecido - sistema de interações afetivas via “bluetooth”: um olhar que envia ao e recebe do outro, imagens, sons, desejos, anseios e vontades.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Receita da Vida

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 09/10/2009 no link:

http://www.jvaflash.com/jornal/Flash/20091009/carrega_pag12.htm

Todo mundo que já fez – ou pelo menos tentou – fazer um bolo alguma vez na vida, sempre obteve os seguintes resultados antes de conseguir fazer a receita exata, ou desistir no meio do processo: ou queimou, ou solou, ou não cresceu, ou faltou sabor, ou ficou demasiado doce. Os motivos são vários e nunca a culpa é do cozinheiro, ou seja, nós somos sempre “experts” no assunto e o problema está em algum ingrediente colocado na medida errada, nos utensílios que não eram os ideais, na cozinha, etc.
Isso quando não resolvemos “quebrar” a receita e fazer somente a metade achando que facilitará o processo, economizará nos ingredientes e renderá uma porção menor, porém suficiente para satisfazer a fome naquele momento.
Na pior das hipóteses começamos as substituições por conta própria: se são dois copos de leite e só temos um e meio, adicionamos meio de água para não precisar sair para comprar outra caixinha; se são quatro ovos e só temos três, colocamos uma ou duas colheres a mais de manteiga, e por aí vai.
Durante o processo, se na receita pedem uma forma de 8cm, eu ignoro e pego a que for mais fácil de ser retirada da pilha de vasilhas no armário. Se é pra assar a 180º eu coloco 300º para agilizar o processo. Se o tempo de cozimento é 35 minutos, eu abro o forno de 5 em 5 minutos para olhar se já está pronto.
No final desse processo culinário, o que era para ser um momento de prazer, de relaxamento, de incentivo à criatividade na cozinha, tornou-se uma estressante e chata materialização de uma simples receita/desejo - que deveria ser compartilhada com outras pessoas no momento da degustação – agora inidentificável como algo saboroso, até mesmo comestível.
Não tão diferente do processo de preparação de um bolo, a vida também segue uma receita base. É essa base que faz com que todos tenham a mesma chance de ser feliz durante sua vivência terrena, ou seja, existem ingredientes que são fundamentais para que ela cresça, e outros que dão um toque diferenciado a cada receita, tornando-a melhor ou pior, dependendo da medida adicionada. Por exemplo, o dinheiro; toda receita de bolo da vida pede uma quantidade “x” dele – para alguns é preciso maior quantidade para dar um sabor único, para outros é menor, pois aprenderam a temperar com outros ingredientes. Você pode ter uma grande quantidade dele estocada no armário, porém para ajudá-lo a acrescentá-lo na medida certa, você deve ter uma boa quantidade de humildade, caridade, amor, etc. A ausência dele também torna a receita pouco apetitosa.
Quebrar a receita da vida - dividindo os ingredientes para economizar - também não vão torná-la mais simples de viver e mais fácil de ser saboreada. Nada substitui uma vida completa, com cada produto adicionado na medida certa.
As substituições dos ingredientes ou a realização da receita sem alguns deles devem ser feitas seguindo as dicas de alguém que aprendeu a receita antes de você, ou seja, alguém que sabe fazer um bolo sem ovos, sem leite ou que conhece alguns truques fundamentais para obter o resultado desejado.
Todo esse processo culinário – tanto do bolo quanto da vida ou do bolo da vida – requer paciência e dedicação, mas principalmente entendimento do que você está fazendo para o resultado que deseja obter, ou seja, não é tornar esse momento uma obrigação sem sal e irritante, porque o resultado será sempre o mesmo, mas tornar o processo de vivência da vida uma eterna receita de bolo à qual a todo momento estamos aprendendo com os erros, enquanto mordiscamos alguma fatia deliciosa - principalmente aquelas com muito recheio – junto com as pessoas que mais amamos - como num eterno café da tarde de domingo, na cozinha do sítio.
O bolo representa o resultado de toda uma receita, regada de movimentos, cálculos, criatividade, alegrias, tristezas, etc., no entanto a felicidade não pode ficar restrita somente a ele, mas a toda lembrança desse processo/vivência de materializar desejos.