domingo, 7 de março de 2010

As Hienas Sempre Voltam

É comum que todo mundo que esteja em um relacionamento se sinta inseguro, amedrontado, com milhares de perguntas que envolvam o passado antes de você chegar, o presente ao qual se faz parte e o futuro que não se tem certeza sobre nenhum dos dois – se será um novo passado que se repete, ou o presente que se firmará.

São questões que vamos construindo em nossas mentes, hora com situações que nos favoreçam, hora com fatos que nos causam dor de cabeça, quase como num teste de auto-defesa, onde precisamos desesperadamente criar anticorpos para situações que nunca existiram – e talvez nem existam -, mas que se um dia acontecerem, acreditamos estar preparados para todas as formas de reação frente ao fato.

Essa necessidade de estar sempre “armado” ou “preparado” para a guerra é que faz com que nos identifiquemos com um documentário do Animal Planet, no capítulo intitulado “A caça dos Leões”.

Pense que entrar em um relacionamento significa antes de mais nada, ir à caça da presa ideal para o nosso apetite, para saciar nossa fome de companhia, de carinho, de sexo, de amor, etc.

O leão no meio de uma grande manada de guinus, escolhe aquele que mais o apetece, e a partir dessa escolha passa a rodear a presa, primeiro à distância, e depois, aos poucos vai se aproximando até dar o “ataque” final. Aquele momento em que, no caso de nós humanos, intitula-se como o momento em que a pessoa é capturada e aceita a proposta de namorar.

Durante todo o tempto em que o leão se mantém na degustação da presa, ele é tomado por um medo de ameaça. É esse medo de um inimigo à altura, leões que já vislumbraram essa presa em noutro momento, essa necessidade de defender aquele território demarcando-o, que faz o leão rugir, levantar, preparar-se para a batalha.

E por dias a fio ele fica ali, deitado, ao lado da presa, alerta para que nada aconteça a ela. O rei da savana africana é cercado de súditos que querem derrubá-lo do trono, ou pelo menos deliciar-se com a refeição real.

E mesmo que ele mostre as garras, ande ao redor da presa tentando cercá-la por todos os lados, evitando da maneira como pode essa aproximação alheia, chega o momento em que ele cansa, em que ele precisa deitar e dormir. Suas forças se foram, e toda a voracidade com que estava ha um tempo atrás converteu-se em uma fadiga latente.

Ele se entrega ao cansaço, deixa a posição de rei, de fortaleza para a proteção da sua presa, e dorme. E é no momento do sono que as hienas chegam.

Com sua característica gargalhada de desdém, sua aparência bizarra, odor de bicho traiçoeiro, que vive para roubar aquilo que outros animais se esforçaram para conseguir, elas são incapazes de caçar, não conseguem nada por si mesmas e só sobrevivem dos restos da caça de outros animais.

Às vezes, com um pouco de sorte, enquanto o leão dorme e as hienas se aproximam, aproximam-se vindo dos céus, os abutres. E enquanto abutres e hienas se enfrentam na disputa pela presa ali próxima, o leão, usando da pouca força que ainda lhe resta, consegue lentamente, arrastar dali aquilo que tanto lutou para conseguir. Mas sabe, que onde quer que vá, terá sempre que ser astuto, pois mais cedo ou mais tarde as hienas sempre voltam.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

A saudade desafia sua capacidade de matá-la outra vez

Não! Nunca conheci quem conseguisse lidar com a saudade, talvez porque esse seja um sentimento ao qual você esteja direcionado a senti-lo, pura e simplesmente, talvez porque ela seja “imortal”.

Imagino que a saudade seja dividida em três categorias: “saudade triste” “saudade feliz” e “saudade instantânea”. Saudade triste é aquela saudade de quem partiu eternamente ou de quem está prestes a fazer a temida viagem sem volta. Saudades de quem se foi por uma briga, uma desavença, daquele rompimento com alguém cujo futuro você sonhava em partilhar lado a lado.

Essa é uma saudade que quase nunca é suprida, principalmente se quem partiu, partiu eternamente: seja para o lado de lá, seja para o lado oposto ao seu. É uma vontade de abraçar, de conversar, de sentir qualquer aspecto, o mínimo que seja, mas que volta e meia remete à pessoa e traz todas aquelas repetitivas boas lembranças capazes de trazer uma dorzinha momentânea no peito, no final da tarde.

Saudade feliz é aquela de quem foi morar ali – do outro lado do mundo -, mas ainda sim é aqui na terra, portanto alcançável. Saudades daquele amor avassalador de verão, que se foi logo que chegou o outono. Que voou junto com as folhas secas que caíam das árvores. Você viu o relacionamento voltar ao pó como as folhas, mas o amor não! Ele continuou, sobreviveu até o verão seguinte e, hoje ele perdura as quatro estações. Saudades daquele amor que virá um dia. Atuando exatamente como no filme que você criou na sua mente. Nos mínimos detalhes, cada palavra, cada gesto. Produção digna de Oscar.

Essa é uma saudade muitas vezes suprível. É uma saudade louca ou que induz à loucura, porque quando menos se espera, você simplesmente junta tudo numa mala como se estivesse fugindo da polícia por ter cometido um crime – que na verdade você irá cometer, pois irá matar a saudade -, e vai sem pensar, atrás de quem está longe. É uma saudade que você segura, espreme, aperta no peito, e quando não agüenta mais, faz o impossível, junta suas armas e vai à luta.

Saudade instantânea é a saudade de quem ainda irá. Saudade de momentos, pequenos momentos, às vezes minutos, segundos de um beijo que fez toda a diferença, de um “Te Amo” que saiu de forma mágica. Saudades daquele porre com a galera, porque não? Na maior parte do tempo estavam todos inconscientes, mas lúcidos o suficiente para lembrar no dia seguinte depois de quase doze horas de sono, debaixo de uma ressaca de querer sumir, com direito a muita sopinha, analgésicos e tremedeira irritante (rs). Saudades daquele dia em que acabou a eletricidade. Foi exatamente nesse dia que você viu sua família inteira se reunir ao redor da mesa, partilhar casos, brincadeiras, risadas. Viver aquela noite sem TV, internet, vídeo-game foi incrível.

Esse é um tipo de saudade que abrange pequenas coisas, mas grandes o suficiente para fazer parte do seu repertório de histórias de vida para todo o sempre.

E não! Nunca conheci quem conseguisse lidar com a saudade, primeiro porque ela é impossível de ser “matada”. Assim que o crime é cometido, você volta à sua vida costumeira tentando disfarçar o acontecido e, às vezes, no mesmo dia ela já está ali, te enchendo outra vez - viva, cuspindo em você lembranças, jogando na sua cara tudo de bom que você viveu e meio que rindo da sua incapacidade de retomar aqueles momentos, quase num desafio à sua coragem de matá-la novamente.

Segundo porque ela é “onipresente”, está em diversos lugares, pessoas, coisas, músicas, filmes, etc.

Mas o mais importante é saber que por mais perfeito que seja o crime de matá-la, ela sempre ressurgirá, ainda mais forte, ainda mais viva. E é aí que você a engana; lembra daquela frase “se não pode vencê-los, confunda-os?”, então, que tal uma ligação, um e-mail, uma visita ao cemitério, ou ao lugar onde tudo aconteceu?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Recicle-se

Texto publicado no Jornal Vale do Aço em 18/12/2009 no link:
http://www.jvaonline.com.br/novo_site/jornal/47/swf/OtU183-ASEXT.swf


Entre as muitas idas e vindas, em meio às infinitas rotações ou voltas da vida - junto ao movimento rotatório da Terra - sempre nos esbarramos com a sensação de imutabilidade. Sensação de que não acontecem mudanças em nossas vidas a um bom tempo. Mudanças necessárias para que a vontade de viver se renove em pequenos intervalos, tal qual a alegria pelo novo somada à ansiedade frente ao desconhecido.
E talvez seja a rotina casa-trabalho, casa-faculdade, ou casa-trabalho-faculdade, etc. que nos coloque nesse entendimento de órbita, ou seja, nessa rotina previsível de certezas cristalizadas.
Vivendo nesse marasmo cotidiano, ou por mais movimentado que seja nosso dia, ainda sim todas as ações estão pré-estabelecidas por uma necessidade subjetiva individual ou coletiva, ou pelo próprio desenvolvimento automatizado dos gestos, em função dessas necessidades.
Mesmo que os finais de semana sejam fartos de atividades diurnas ou noturnas, não há realmente nenhuma novidade, visto que sair da rotina virou rotina. A sensação de “congelamento” da vida é tamanha, que não conseguimos sequer movimentarmo-nos para quaisquer mudanças. Sentimo-nos “engessados” e presos em nossa capacidade física e, procuramos em nossa mente, justificativas para nosso estado atual, numa compensação involuntária de todo um caos interior - porém contido, que estamos vivendo - prestes a explodir a qualquer momento, numa espécie de “Big Bang”.
Não é que não tenhamos vontade de mudar, mas simplesmente nos entregamos à mesmice por comodismo/medo de movimentar, mudando pensamentos, valores, vontades e substituindo velhos hábitos e crenças por novas atitudes sensatas de situações avaliadas com cautela.
Mas entender a mudança apenas no sentido amplo, de uma reviravolta mais ou menos do tipo ganhar na loteria, é ignorar as sutilezas que a vida apresenta. São pequenas modificações diárias que após um período de tempo mais longo provocam resultados de proporções realmente significativas.
“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”. E a ação de furar por de ser entendida aqui como capaz de gerar uma piscina natural de água mineral e límpida - onde há milhões de anos havia apenas uma rocha - e que virou um parque, freqüentado por muitos turistas, e graças a toda essa mudança sutil da natureza somada à ação humana, agora emprega várias pessoas que antes não tinham uma renda fixa: o guia local que outrora vivia da pesca e do plantio, sua esposa que só ficava em casa e hoje vende seu artesanato na loja do parque, etc.
Mudanças radicais nem sempre são as melhores alternativas, primeiro porque podemos não estar preparados para o impacto do totalmente novo, e segundo porque, mesmo necessitando de grandes movimentações, dentro de cada um existem aspectos que podem ser reaproveitados nesse novo estado do ser - e não podem ser descartados como obsoletos ou ruins - mas atribuindo novos significados/usos, nada se perde, tudo se renova.
Vamos aproveitar esses últimas dias de 2009 para colocar no papel tudo aquilo que queremos mudar, re-trabalhar ou reorganizar em nós e em nossas vidas. Encontrar dentro do mais íntimo, a força que sempre tivemos e que abdicamos em algum momento, mas que, durante esse tempo em que esteve adormecida, despertará com um acúmulo de energia capaz de impulsionar outra vez nossas turbinas - de energia eólica, claro -, se estamos trabalhando a mudança, vamos mudar para melhor, para aquilo que cause o menor impacto negativo possível.
E aproveitando esses tempos de Conferência de Copenhague, onde os países se unem para salvar o planeta, além de dar nossa contribuição fazendo o máximo possível pelo meio ambiente, vamos fazer o mesmo conosco, por isso, RECICLE-SE.
Bons Fluídos em 2010!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Metade da Cara

Texto publicado no Jornal Vale do Aço em 04-12-2009 no link:

http://www.jvaonline.com.br/novo_site/jornal/35/swf/cJrbq3-ASEXT.swf

“Metade” tem sido uma palavra de destaque no universo dos relacionamentos há muito tempo:
-Esse namoro só dá dando certo porque eu sou a metade racional dessa história, já que você
é a metade infantil.
-Você roubou metade do meu coração!
-Preciso encontrar minha metade da laranja!
-Estou dividido entre meus amigos e meu relacionamento.
Essa palavra também é abordada no campo da escrita; o texto “Metade” de Osvaldo Montenegro diz em alguns trechos: (...) “Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio...” (...) “Porque metade de mim é o que
ouço, mas a outra metade é o que calo...”.Na música “Metade” da Wanessa Camargo, diz o refrão: (...)“Metade de mim te ama e te adora, outra metade de mim precisa ir embora...”
Já no refrão da música “Metade”, da Ana Carolina, diz: (...)”Estou em milhares de cacos, eu estou ao meio, onde será que você está agora?”
Se tomarmos as histórias sobre seres humanos divididos que procuram sua outra parte, ou seja, que estamos pela metade e precisamos da outra para ser completo, poderemos entender que os trechos acima falam do resultado da junção dessas duas partes – dois tornaram-se um -, porém apresentando as especificidades de cada uma das metades que, mesmo estando juntas, são perceptíveis, mas necessárias para o sucesso do relacionamento: uma metade é comunicativa, a outra calada, contida; uma metade vive a euforia do amor, a outra se vê mais distante, não tão envolvida; metade está sofrendo interiormente, calada, e a outra não consegue ver esse sofrimento. Sempre uma metade é diferente da outra e, algumas vezes o total oposto, ou seja, elas não são iguais em nenhum momento, exceto pelo fato de serem metades.
Segundo estudos científicos, se dividirmos um rosto em duas partes, e juntarmos dois lados esquerdos e dois lados direitos, veremos que se formam dois rostos com pouca ou nenhuma semelhança entre si, isto é, um lado é diferente do outro e é isso que dá harmonia à fisionomia.
Pensando nessa diferença física necessária e somando-a a expressão “cara-metade”, entenderemos que estamos há séculos procurando pela pessoa errada.
Entenda: se em um rosto – vulgo cara – um lado é diferente do outro, ou seja, cada metade é única, com características um pouco diferentes ou com essas diferenças mais acentuadas, o fato de procurarmos uma cara-metade que seja nossa alma gêmea - que segundo o dicionário significa igual - de forma mais teórica estamos prestes a construir uma relação que dificilmente dará certo. Sabendo que a necessidade da diferença entre os lados da nossa cara é que a torna um todo interessante, o correto então é procurar a nossa cara-metade sendo um pouco o oposto de nós mesmos.
A partir do entendimento dessa perspectiva da diferença enquanto fator fundamental para a plenitude de uma relação a dois, estaremos prontos para enveredar pelo mundo, na busca da metade perdida.
E não, os dois não precisam gostar do mesmo gênero de filme, dos mesmos estilos musicais, das mesmas cores da pintura da parede do quarto dos filhos, do mesmo partido político ou time de futebol para terem uma final feliz. É melhor que um prefira praia e outro a montanha, que um goste de teatro e o outro de show, um prefira pizza portuguesa e o outro nem goste tanto de pizza, pois assim terão sempre uma novidade para fazerem juntos, experimentando um pouco do mundinho um do outro, já que tornando-se um, ambos precisam compartilhar e participar de tudo que agora envolve cada parte.
E vamos procurar a metade torta e diferente mesmo, e esquecer essa coisa toda de “alma gêmea”. Vivam as diferenças e que possamos enxergar nelas uma oportunidade de experimentar o novo que sequer imaginamos

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Substitutos

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 27/11/2009 no link:

http://www.jvaonline.com.br/novo_site/jornal/29/swf/iV67E3-ASEXT.swf


Está em cartaz o filme “Substitutos”, cuja história mostra o ano de 2054, onde grande parte da população usa os andróides substitutos da Virtual Self, que cumprem todos os afazeres do dia a dia inclusive os prazeres da vida e permitem que seus donos jamais tenham que sair de casa. Tais andróides podem ser adquiridos com a aparência física que o comprador desejar, o que acarreta em um mundo de máquinas esteticamente perfeitas e interiormente vazias. No decorrer do filme um terrorista tecnológico, inconformado com a ausência de “calor humano”, passa a assassinar os andróides, causando caos geral. Dois policiais são designados para cuidar do caso. O final da história, só indo ao cinema ou esperando o lançamento nas locadoras.
Na terça-feira 17/11, aconteceu algo que me fez questionar sobre o futuro da humanidade, que o filme descrito na sinopse acima mostra.
Em um supermercado aqui da região fui atendido em um dos caixas, por uma mulher que eu tenho quase certeza que era um andróide, mas um andróide desses baratos, porque ela não vinha com o chip da fala. Ela me encarou com uma total ausência de expressão ou sentimentalidade e, com gestos extremamente robóticos, passava produto por produto no laser. Sem descolar os lábios para se expressar, inclusive sobre o preço total dos produtos, ela me encarou, de modo que eu precisei olhar a tela do computador para me informar e, em seguida efetuar o pagamento. Tão logo ela empacotou as coisas com a mesma frieza, virou-se para o outro ser humano que estava atrás de mim e repetiu os mesmos movimentos superficiais.
Esse é um fato que acontece com uma freqüência muito maior do que imaginamos. Deparamo-nos com situações de austeridade nos ambientes urbanos, tanto por parte de quem atende, quanto por parte de quem é atendido. E apesar de toda essa freqüência, não habituamo-nos à falta de educação alheia e ficamos indignados - mesmo que o fato não ocorra apenas conosco -, pois não temos qualquer culpa sobre o que acontece na vida do outro, como o outro também não tem responsabilidade sobre o que acontece à nossa vida.
Saber separar o mundo interior dos outros do nosso mundo interior em conflito, é o primeiro passo para não começarmos uma guerra com a atendente de call center, ou para que o cobrador insatisfeito com alguma coisa trate-nos com arrogância.
E isso só acontece porque a maioria das pessoas enxerga no outro, senão a culpa pelos problemas ou dificuldades que enfrentam, uma forma de “colocar para fora” toda a frustração, e sentimentos ruins acumulados de situações passadas, no mais famoso estilo “pegar alguém para ‘Cristo’”.
Precisamos entender que aquela atendente do outro lado da linha se encontra em um patamar hierárquico de cumprimento de ordens, e não é responsabilidade dela o fim do plano de seus minutos ilimitados, ou seja, ela apenas está repassando para você as informações que chegaram até ela. Como também não é responsabilidade dos passageiros a insatisfação do cobrador com algum aspecto do seu emprego.
A palavra da vez é “discernimento”, que segundo o Dicionário da Língua Portuguesa significa distinguir, conhecer, avaliar bem, ou seja, conhecer realmente a situação pela qual está passando, distinguir suas próprias atitudes para contribuir com uma resolução ou agravamento dela e avaliar bem o que é de sua responsabilidade.
Discernir significa amadurecer enquanto ser humano, mostrando que você é capaz de pensar e avaliar antes de agir, pois para cada situação existem possibilidades e caminhos para serem pensados. Bem diferente de uma máquina que é programada para dar respostas exatas a possíveis situações de erros - anteriormente imaginados e já programados -, precisamos repensar nossas atitudes frente aqueles com o qual lidamos diariamente, principalmente porque somos de forma direta responsáveis por eles, no momento em que estabelecemos uma relação mínima – de pedir uma informação que seja -, e cabe a nós decidir se queremos receber de volta a mesma austeridade à qual estamos tratando os outros.
Não há nada que alegra mais o espírito, do que começar o dia ouvindo uma saudação cordial de alguém que a pronuncia quase cantando, com um sorriso sincero no rosto.

E antes que os comércios sejam tomados de andróides atendentes – o que acarretará num aumento considerável da taxa de desemprego, pois máquinas não são remuneradas –, e nós mesmos sejamos substituídos por robôs frios, tornemo-nos um pouco melhores ao estabelecer uma relação com alguém, pois se o mundo vai mal, é porque provavelmente seis bilhões de atitudes ruins individuais demonstram que cada um em algum momento contribuiu para que ele se tornasse assim, essa é a lei de causa e efeito.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Geyses Anônimas

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 13/11/2009 no link:

http://www.jvaonline.com.br/novo_site/jornal/17swf/DoP2C3-ASEXT.swf

Meios de comunicação de todo o país vem discutindo a alguns dias o caso da estudante Geyse, expulsa da UNIBAN após ser “vaiada" pelos alunos por usar um vestido curto e decotado para ir às aulas.
Como acontece em todos os tipos de assuntos estampados pela mídia, uma parcela das pessoas ficou contra a estudante, outra parcela a favor. Argumentos surgiram e surgirão de ambos os lados e não temos a intenção de acusar ou defender a estudante em questão, mas, desejamos opinar sobre o caso que coloca em cheque a “democracia” na qual juramos que vivemos e principalmente o falso liberalismo do povo brasileiro.
Observando ambos os lados – acusadores e defensores -, nos damos conta de que essa estória de indignação nacional diante de um fato acontece na maioria das vezes quando este ganha 15 minutos de fama. O caso da aluna da UNIBAN é apenas mais um em meio a tantos outros que ocorrem diariamente no país, debaixo dos nossos narizes e pior, quando somos participantes ativos, ou seja, quando nós somos os que “vaiam”.
O que aconteceu com a estudante Geyse foi uma forma de preconceito gerado a partir de um estereótipo criado pela sociedade para “rotular” aquelas pessoas que devem ser encaradas como uma “verruga” – causadora de estranhamento e motivo de vergonha – que precisa ser retirada de qualquer forma e o mais rápido pois, está contaminando o “mundo perfeito”. Os estudantes – que segundo algum quesito, se encaixam nos padrões de seres humanos normais – se sentiram ameaçados com a presença daquela mulher de roupas “inapropriadas” e, rapidamente se sentiram na obrigação de retirá-la do ambiente de aprendizagem - também conhecido como ambiente de educação – e de forma “liberal”, agrediram moralmente a jovem.
Num país cujo cartão postal é o carnaval, ou seja, onde todo tipo de promiscuidade é vista como normal, onde mulheres desfilam nuas, celebridades são flagradas em festas usando vestidos curtos e sem lingerie, onde programas de TV de finais de semana durante todo o dia exibem mulheres melancias, etc. realmente é de admirar o porquê da indignação dos estudantes e daqueles que os apóiam.
Existem assuntos muito mais sérios que deveriam ser encarados com maior indignação do que o caso da estudante da UNIBAN: governo cheio de corrupção, pessoas ainda sem infra-estrutura básica de água, luz e esgoto, crimes hediondos a todo instante, etc.
Se pararmos para pensar, sempre estamos nos esbarrando com essas questões de julgamentos baseados em nossas próprias convicções. Escolhemos aqueles que queremos que sejam “excluídos” da sociedade porque nos achamos superiores e no direito de fazê-lo e, nos ausentando da culpa, influenciamos as pessoas ao máximo a enxergar da forma que queremos.
O caso da estudante chama a atenção para os rumos que estamos deixando que a sociedade tome, ou seja, um mundo que caminha com seres humanos cada vez mais individualistas e menos tolerantes, de pessoas que dizem buscar a paz, mas essa está cada vez mais distante.
Há quem diga que Geyse é a “Maria Madalena” contemporânea, apedrejada com palavras pela multidão indignada com seu comportamento. Resta-nos escolher de qual lado ficaremos: daqueles que “não tem pecados” e atiram pedras o tempo inteiro, ou de Jesus. E quando falamos em escolher o lado d’Ele, em hipótese alguma estamos falando de religiosidade, estamos apenas exemplificando que sempre que estivermos diante de uma situação como essa, temos que ser sensatos o suficiente para olharmos nossas próprias vidas.
E somente dessa maneira, seremos capazes de compreender as diferenças, ao invés de “apontar” para as milhares de Geyses-mulheres, Geyses-idosos, Geyses-crianças, Geyses-negros, Geyses-gays, enfim, todos aqueles que sofrem diariamente com algum tipo de agressão moral e física por preconceito dos outros “estudantes” da uniVIDA.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Plenitude Vazia

Texto publicado no Jornal Vale do Aço no dia 05/11/2009 no link:

http://www.jvaonline.com.br/novo_site/jornal/9/swf/xEk8t3-ASEXT.swf

Nada dá mais prazer do que a sensação de plenitude: em um dia comum para muitos, você acorda, olha para o teto e começa a pensar em quão boa é sua vida. Seu olhar parece atravessar o telhado e sumir no infinito. Não se ouve mais nenhum som externo; nada naquela manhã te distrai enquanto você pensa. É quase uma hipnose esse momento de reflexão da sua caminhada desde o início da vida - dos problemas que já superou, das dificuldades que ficaram para trás, pessoas, instantes, lugares, objetos, etc. tudo “enterrado” bem fundo para jamais voltar à tona.

Você começa a perceber a sua força e capacidade de superação e todos os ganhos que obteve graças à dedicação extra em cada aspecto dessas vivências cotidianas. Não há problemas que não seja capaz de superar, ou melhor, não há um problema sequer à uns quatro dias. A saúde vai bem, obrigado! Mesmo pequenas enxaquecas não são capazes de te tirar desse estado de satisfação mor.

Demorou algum tempo, mas finalmente você entendeu que quando falam que cada ser humano é único, estão realmente falando de um ser “exclusivo” que, diferente de um objeto também exclusivo, jamais poderá ser reproduzido, mesmo pagando por isso, mesmo desejando com todas as forças. E é por entender as potencialidades dessas subjetividades, que os conflitos passaram a ser raros. Você aprendeu a lidar com as diferenças, percebendo que ela é fundamental para que o mundo seja realmente um lugar interessante, e que uma unidade de pensamentos, maneiras de ser e estereótipos, seria algo extremamente chato.

E melhorando sua convivência de um modo geral, você cresceu espiritualmente e passou a perceber maiores vínculos sentimentais com as pessoas ao redor – relacionamentos de trabalho, de vizinhança, de amizade, familiares e claro, amorosos.

Tudo está tão bem e é tão inacreditável que uma sensação de medo e ansiedade subitamente começam a percorrer o seu corpo. O infinito some e o ar começa a ocupar todo o seu interior como se não houvessem mais órgãos dentro de você. É uma sensação tão desesperadora e angustiante que você nem sabe o que fazer. Às vezes chora, rola de um lado para o outro na cama, comprime a barriga. Outras vezes até toma algum comprimido pensando ser uma dor física, mas não é. É um grande vazio que, volta e meia você sente. Um vazio que não pode ser preenchido por essa plenitude atual, porque ele é conseqüência de um ato do passado: lembra quando você enterrou um monte de coisas no fundo da alma, pensando que estava “resolvendo” sua vida? Na verdade você apenas “varreu a sujeira para debaixo do tapete” e, agora que alguém o tirou para lavar, você se viu outra vez diante de tudo que estava escondido debaixo dele.

Pense na lógica de um aterro sanitário: ele resolve os problemas do lixo das cidades num tempo muito curto, e em um determinado momento ele transborda, não há mais como enterrar nada e tudo começa a se acumular na superfície. Além de tornar quase que completamente inutilizável outra vez aquela área, o odor que ele libera durante todo o processo de vida útil acaba gerando doenças e atraindo insetos indesejáveis.

Quanto mais “lixo” você enterrar na sua alma, mais repugnante e insuportável para você mesmo ela se tornará, até chegar um determinado momento em que tudo transbordará e se acumulará na superfície.

E só há uma forma correta de acabar com todo esse “lixo espiritual” que você enterra: é em primeiro lugar procurar um profissional que saiba lidar com isso - Psicólogos, Psiquiatras, Psicanalistas – para então eles te ajudarem a desenterrá-lo e realmente dar um fim.

Como geralmente há muita coisa enterrada, provavelmente vai levar um tempinho até que “tudo entre nos eixos”, mas, todo esforço é sinal de grande merecimento e, diga-se de passagem, a gente faz tanto esforço para conseguir um monte de futilidades que não há desculpa para não se esforçar pela própria saúde mental.

Há, e não venha com a velha desculpa de que esses profissionais são para “gente doida”. Doido mesmo é saber que em pleno século XXI as pessoas ainda criam pré-conceitos sobre isso.

“Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz...” e nada melhor do que aprender com quem sabe fazer a vida um pouco mais bela, não é mesmo?