domingo, 21 de agosto de 2011

sessão de contos: Nada de Adan no Domingo



Domingo era sempre aquela depressão em último grau. Domingo simbolizava o estado de entorpecente angústia na qual Adan sempre submergia seus pensamentos.
Domingo é o dia em que o dia demora uma semana para passar, e ainda sim consegue ser mais entediante que o horário eleitoral gratuito. Domingo é o dia onde o sol ou sai animado demais e irrita com um calor insuportável ou dorme e ronca deixando uma paz celestial em tons de cinza-vida.
Domingo é aquele dia em que a cama é mais confortável, os lençóis brincam de cabo de guerra com você e seus travesseiros insistem em abraçar seu rosto, quase tapando sua respiração, tamanha maciez.
Adan porém gostaria de pular domingos, ele os odeia. Quem sabe renomeá-lo pudesse ajudar? Quem sabe o domingo deixasse essa idéia de fim de tudo e o nome sugerisse uma sensação de início. Mesmo sendo o início da semana, domingo sempre traz essa sensação de que acabou, que não dá mais pra voltar, ou de que a semana mais uma vez voou, deixando o ócio como resultado.
Se debatendo em pensamentos, Adan quer solucionar esse enigma da angústia do domingo.
Porém aconteceu de novo, mesmo que nos mais atípicos domingos isso ocorra em menor escala, esse aconteceu. Ele sucumbiu ao estado do qual odeia estar.
Adan cedeu às chantagens sentimentais de sua mente insana e se entregou à angústia.
-“Ela é louca”. Pensa consigo sobre a angústia. “Vem sempre que estou bem e destrói toda felicidade, a mínima, até a última gota”.
Nem mesmo o escuro, o silêncio ou as músicas a espantam. Qualquer tentativa de expulsá-la faz com que na próxima vez que vier buscar o que é dela, volte ainda com maior força e levando maior quantidade de bons sentimentos.
São os impostos que se paga por ser humano, por ser “racional”, por ser dotado de massa cinzenta em quantidade suficiente para produzir sofrimentos.
Quisera ser um animal, qualquer um deles! Qualquer um não! Não gostaria de ser bicho de estimação, nem bicho de zôo. Enjaulado ele já está, seja pelo que sente ou pelo que é. Esse jardim do Éden não passa de uma ilusão criada para aprisionar nossa própria inferioridade conosco, fazendo-nos acreditar que há um mundo melhor, ou que esta prisão chamada terra pode ser melhor e só depende de esforço.
Mas como Adan poderia saber se um esforço conjunto para torná-la melhor faria de fato com que ela fosse melhor, visto que se estamos todos dotados de um vazio eterno, o problema não é esse jardim mal cuidado e sim nossa capacidade de não nos entender nessa “selva perfeita”.
Então, na criação desse jardim, Deus descansou no sétimo dia... e já não tinha mais paciência para configurar esse dia com a mesma dedicação que configurou os demais. Não mexeu muito no clima, nas reações do corpo frente a essa data estranha. Não trabalhou bem as cores intermediárias, nem perdeu muito tempo dando significados iniciais ao que era pra representar o início.
Domingo pode ser que venha de Dominó, ou seja, esse efeito onde os dias da semana vão caindo uns sobre os outros, derrubando o que está depois, até desembocar toda a força no primeiro (que na verdade em estado de espírito representa o último) dia da semana, tornando sua energia catastrófica para um espírito já fragilizado como o de Adan.
Domingo também pode ter originado de Domínio, ou seja, dessa angústia traiçoeira e forte que chega arrebatando tudo que há dentro do espírito, sem se preocupar com os estragos.
Talvez Domingo tenha mesmo originado de Do Mínimo, ou das menores quantidades de alegria, de amor, de carinho, de ânimo, de força de vontade. Do mínimo de esforço Divino para que o Domínio da angústia sobre esse efeito Dominó fosse pelo menos redistribuído nos demais dias da semana para que esse tal Sun Day não se tornasse toda semana um Insanity Day.
São 20:16 Adan, acalme seus sentimentos, pois já não há Sun nesse Day e logo, logo, um New Day irá começar, espera-se, sem nenhum Sun.

domingo, 17 de julho de 2011

sessão de contos: A Linguagem



No fundo da mente a surdez total. Adan estava sentado, observando o mundo que não retribuía esse olhar. A luzes se desfocavam como borrões neônicos na penumbra daquela noite. Ao redor, cabeças embaladas por movimentos de lábios e de ondas sonoras vindas de algumas caixas de som ali espalhadas. O vento que sempre soprava mais forte naquele elevado, agora incidia com uma força um pouco menos tranqüila, vindo de todos os lados, envolvente.
Xadrezes, listras, verde-cerveja, branco-cigarro, azuis anêmicos e muita informação empilhada ou pendurada/riscada aqui e acolá. Na boca, o gosto da mistura de tudo isso: um leve sabor do tabaco recém ingerido, deflagrando um odor nem bom nem ruim, mas potencializado por um sabor um pouco diferente, sentido pela língua dançando atrás dos dentes seduzida pelo malte.
Os hormônios vão deixando a timidez de lado e pouco a pouco saem de seus refúgios, trazendo consigo uma sensação de bem-estar. Não está frio, também não está quente, mas todos no recinto usam casacos pois, todos sentem o vento levemente irritado. Tudo bem! Todos têm o direito de ter um dia ruim, com o vento não é diferente.
A boca quer desenhar as palavras. Pinta-las calmamente uma a uma, pictoricamente, feito uma artista que quer expressar seu próprio mundo, mas consciente de que provavelmente ascenderá opiniões diversas a seu respeito. Tanto faz! No estado de imersão em que se encontra, qualquer crítica não será ouvida, e também não está falando para uma multidão senão de uma única companhia com uma efervecência interna.
Lá embaixo os carros riscam a rua que sobe determinada sentido contorno. Suas luzes a certa altura amarelas, a certa altura vermelhas, transitam como corpos celestes perdidos num espaço infinito, assolado por buracos negros. Astronautas da noite vão de um lado a outro com suas roupas de proteção e seus apetrechos.
Sobre a mesa de madeira carimbada a brasa com uma logo, garrafas, celulares e respingos de água condensada e precipitada em forma de gotículas tímidas e frias.
Alto! Na estatura, no lugar onde se encontra, no nível alcoólico, no índice que mede a necessidade de um beijo carnal. Alto. Não apenas seus próprios desejos, mas desejos compartilhados de forma camuflada sobre necessidades contidas em vivências insatisfatórias.
“Alto lá!” Pensa recompondo-se. “Melhor controlar todo esse alarde iniciado aí dentro, pois hoje é dia de semana e não há muito que fazer para satisfazer esses altos índices.”
“-Você é muito cheio de regras”, ecoa uma voz no fundo da cabeça, vindo de fora dela.
A defesa é iminente e a susto inevitável: -“Seria isso um sinal da vida?” Pensava. Deixa pra lá, o assunto é outro e ele está meio perdido faz um bom tempo.
-“Não sei se quero dançar no meio da semana”, responde Adan para si mesmo, completando –“sei que agora quero dançar no ritmo da respiração ansiosa, dos lábios meio nervosos por desejo e por não saberem muito bem como devem se encontrar”.
Se devem se encontrar ou não, mas precisam humanamente de um encontro inocente.
Apenas uma forma de respirar na falta de ar, está para além de qualquer obscenidade, antes, um encontro de idéias molhadas, concêntricas, por meio de uma linguagem de superfície. Nada além, nada a mais.
É ali, uma saída na saída, em sussurros e risos meio sem jeito, brincadeiras com fundo de verdade, verdades com fundo de brincadeiras, onde o idioma proibido é falado com olhar desconfiado que, numa dança descompassada os corpos se tocam levemente, com respeito. As cabeças se inclinam cuidadosamente, pouco depois de os olhos se negarem à ilusão de qualquer imagem do mundo. Ouve-se a voz do ser humano que existe em cada um.
-“Abra o portão!” ordenou Adan com voz leve e sorridente. –“Amanhã o dia será longo, mas a noite será curta para desfrutar em sonhos as lembranças de ser tão bem compreendido”.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

sessão de contos: Para Ele Um Outro Tudo



Ele acordou numa quarta-feira 16/05 sem querer muito abrir os olhos. Era sempre assim: ao ser despertado por aquele infernal toque irritante que os celulares possuem, mesmo sendo configurável com sua música preferida, ela perde logo esse posto quando vira um hino de anunciação de mais um dia qualquer. Então ele sempre opta por um dos bips que já vem no aparelho.
Adan sempre fora assim, meio esquisito. Não é que era meio esquisito, mas sempre acordava não querendo acordar, porém pouco tempo depois, sentia uma vontade de viver inexplicável que se exauria ao longo do dia, na medida em que as horas o importunavam com afazeres pré-programados.
Mas nesse dia especificamente – ou melhor, nos três últimos dias – Adan se levantou saudoso quanto à recuperação de sua esperança, cujos longos anos em coma na UTI dos sentimentos, voltou milagrosamente a abrir os olhos. Ela ainda não fala, e se alimenta com ajuda de aparelhos, porém já é um grande sinal de mudança. Sem contar que Adan se sentia angustiado há muito por ter que decidir sobre a eutanásia de sua vontade de viver, vulgo esperança.
Até a metade do dia nada fez de suas funções laborais. Estava mais entusiasmado em fazer qualquer outra coisa que não dependesse de sua obrigação em cumprir o que mandava sua rotina.
Adan era assim, um lutador indefinido, hora esperançoso, hora abatido pela falta de esperança. Mas sabia de uma coisa e tinha isso como sua maior certeza, até mais que a existência de Deus: que tudo aquilo não era para ele, que para ele era um outro tudo. Sentia-se feliz por entender a linguagem da vida. Mesmo que nem sempre concordasse com ela, mas a entendia bem.
Porém tal entendimento tinha um preço: a solidão. Sim, ele era solitário mesmo em grupo. E a solidão lhe causava enormes dores de cabeça, pois passava horas e horas e horas a fio sonhando e imaginando e querendo e indagando e mortificando a própria alma com insultos a si mesmo e a suas atitudes e pensamentos aflitivos, que só o jogavam para mais longe de seu não-eu, sem contudo empurra-lo para o eu verdadeiro.
A solidão era um preço para sua doença chamada inconformismo. Na verdade Adan sempre amou estar consigo mesmo. Ser solitário era uma opção tanto quanto ser naturista ou nômade, mas ele não era nenhum dos dois últimos. Imaginem um solitário naturista e nômade? Que mal tem em ser um pouco egoísta, pensava! Mas ele era mais que um pouco, ele era egoísta a ponto de querer um mundo só pra ele. Um mundo que tentava desesperadamente construir e que sucumbia às ações da vida que nunca lhe deixara satisfazer seus egóicos desejos ao tempo dele.
Todos nós temos um pouco disso aqui dentro. E temos também um pouco de Adan vez ou outra, em maior ou menor proporção. Depende do estado de espírito, quando se tem um.
Adan crê que existam pessoas sem espíritos, assim como existem espíritos sem corpos, o contrário também é possível. É possível porque tem gente que não se pode sentir. Tem gente que aparenta uma ausência de alma, de aura. Como se apenas a casca de carne e ossos perambulasse sem um recheio energético.
Ainda é quarta 15/06 e Adan não fez sequer um esforço em trabalhar. Está ditando esse texto que escrevo, dizendo que parou na parte do corpo sem alma, se autoindagando se isso é mesmo o que ele crê, ou se foi um flash que passou pela mente. Desistiu e mudou o assunto.
Disse que ainda há esperança em seu peito, mas que era para eu ligar o aquecedor que a baixa temperatura da frente fria que veio de algum lugar frio, está congelando seu coração.
Era para eu apagar a palavra coração e escrever alma. Adan não gosta que cite coração, pois é um órgão de carne que não sente nada. Ele também odeia aquela representação em desenho que nada se assemelha com a forma original que há no peito dentro do corpo humano.
Agora a pouco ele contou que rasgou o papel sobre a eutanásia e rejeitou a morte de sua esperança. Contou pra ela, mas ela, como esperado não se moveu, apenas fechou os olhos como quem quer voltar a dormir. Ele entendeu e saiu da sala na ponta dos pés. Deixou para trás aquela máquina que mede os batimentos cardíacos, registrando os abalos sísmicos do coração, subindo e descendo numa linha desenhada pelos sons do piii, piii, piii.... quase um despertador cansativo de celular. 

sessão de contos: Do Nada, O Nada



De súbito, foi tomado por um tremor. Sim, seu corpo tremia por dentro. Sentia aterrorizado os efeitos de quem atinge um estado perceptivo da realidade ,onde tudo é desprovido de sentido e não existe um querer. Até para escrever ele relutava. Não queria absolutamente nada, nem morrer, nem comprar, nem sair de casa, nem ficar deitado digitando, nem nada.
Era um abismo sem buraco. Não sabia ao certo como reagir, pois não havia querer em reagir frente a esse momento de perda total da vitalidade. Havia muito o que fazer, muito, porém nada o motivava.
Ele não era, não seria, e nem nunca, jamais foi. Apenas estava ali, todos os dias, vez ou outra revezando sentimentos extremos, com picos de rara alegria e picos de aflitiva angustia.  Nem mesmo o limbo era mais limbo, a partir do momento em que emaranhava-se nesse estado onde acontece um nada direcionado ao nada.
Parecia se desintegrar no colchão coberto por um lençol vermelho vivo, manchado de gotas vermelho sangue. Não se lembrava como isso acontecera, porém todas as vezes que estendia o lençol sobre a cama, fitava as tal manchas e sentia-se arder em ódio por aquilo. Sorte que as almofadas e travesseiros podiam-nas tapar.
Até se distraía com as outras imperfeições no seu refúgio do mundo mau lá fora. Imaginava-se em outro lugar. Ele não combinava em nada com esse lugar esquisito. Não foi isso que ele almejou no ventre de sua mãe. Não foi pra isso que ela o colocou no mundo.  É o seu lugar agora, mas não é o seu lugar pra sempre, então porque permanecer ali por mais tempo? Pensava sem resposta.
A água gelada sempre o ajudava a retomar os sentidos ilusórios de sempre. Tomou uma boa golada, ela desceu ríspida e embolou na metade da garganta. O ar que entrou esfriou-se com a temperatura da água estancada e, mesmo impedido e fazendo muita força, desceu e encheu os pulmões de um sabor branco-neve, do qual provavelmente tirou-lhe o fôlego.
Seu estômago foi seguido por eles, sendo atingido bruscamente por aquela porção de água fria, que ao bater nas laterais pareciam socos no estômago.
Voltou a se lembrar das manchas. Queria jogar os lençóis fora pois havia os comprado a pouco tempo e não fazia sentido que eles estivessem assim. Se distraiu novamente com seu mal-estar. Pensava se ainda era capaz de querer alguma coisa. Desejava desejar, esse era o ponto principal. Já conseguia exercer força sobre si mesmo como forma de sair dessa tentativa de assassinato de sua alma.
Tinha uma fé pálida estampada, porém firme-inconformada, escondida sob uma ótica desconhecida. Sentia-se o único no mundo por isso. Não por sua forma diferente de encarar Deus, mas por possuir um nada eterno, formado por um desejo de fé de mudança de certeza de impaciência de raiva de não poder gritar para que tudo se resolvesse em seu tempo, mas certo de que resolveriam.
Gritos! Ele sempre os tinha pronto, feito champanhe chacoalhada em virada de ano. Explodiriam a qualquer momento, fazendo ou não barulho, com bolhas e bolhas de raiva, de ódio, de cólera, de inconformismo, jorrando taça abaixo, derramando e grudando o piso. Gritava para o lençol vermelho manchado, perguntando-lhe como se permitira sujar dessa maneira. Gritava para si mesmo pedindo que tivesse um coma mental, fazendo com que parasse de pensar tanto e se tornasse uma pessoa clichê.
Gritava porque gritar mascarava um pouco do nada que existia dentro e que agora, de súbito, causou todo esse transbordar de sentimentos. Como uma correnteza de desespero do qual não há nada a fazer senão se deixar levar por ela, gritando por favor não o deixem afogar, ele submergiu. Respire, respire, respire que o nada ainda não acabou. Respire que do nada vem uma força, a mesma força que sempre vem tapar seus olhos para que não tenhas medo desse monstro que mora dentro do seu armário dentro do peito. Ele não vem todas as noites, mas ele está sempre à espreita esperando seu despertar de consciência. É ele, que como o lençol manchado, mancha sua alma de um translúcido vazio, que desintegra a realidade, transformando-a num pó fino, que quando levada pelo vento, dispersa-se até não poder jamais ser recolhido e recomposto em sonhos e anseios.
Respire!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

E Por Falar Em Pormenores

Existem momentos em que é preciso fechar os olhos. É preciso deixar que o ar apenas flua naturalmente, contornando quinas de paredes e retornando às juntas e músculos, enquanto olfato e paladar mapeiam o espaço ao redor.
Existem momentos em que apenas ar não basta. É preciso que suas propriedades sejam manipuladas e somadas a outras circunstâncias experimentadas de um querer insaciável, suficiente em sua composição, insuficiente em quantidade.
Existem momentos em que todo deslocamento é longo demais. É preciso engessar as próprias pernas e nem levantar da cama, ouvindo ao longe o barulho do despertador marcando cada segundo, e o movimento lento dos ponteiros dos minutos e horas, marcando o compasso dos movimentos mentais.
Existem momentos em que as pessoas são apenas pessoas. É preciso não olhar para elas e não tentar entendê-las, nem dedicar qualquer esforço em prol de uma aproximação, mas antes de tudo, lutar por si mesmo, tentando acalmar o leão que ruge aí dentro.
Existem momentos onde escovar os dentes é uma tarefa árdua. É preciso grande esforço para executá-la, levando a mente a outros mundos, manipulando sonhos enquanto as mãos se esforçam para não incidir a escova contra a gengiva sensível.
Existem momentos perdidos. É preciso vontade de choro, vontade de morte, vontade de drama, apenas para que você se entenda no sentido de acolher suas imperfeitas vontades delirantes do absurdo.
Existem momentos que não existiram. É preciso coragem para torná-los realidade, pelo menos dentro de você, substituindo aquele bom intervalo de tempo por um intervalo de tempo talvez até menor, mas ainda sim bem melhor.
Existem momentos capazes de mudar uma vida inteira. É preciso entender que não dobram-se os joelhos a um momento, não obstante, dobram-se os joelhos para si mesmo, afim de se entregar à dor nas pernas pela caminhada morro à cima.
Existem momentos onde palavrões não exalam todo o ódio contido. É preciso gritar a dor da traição, o choro do desgosto, a dança do orgulho ferido.
Existem momentos em que treme-se o corpo inteiro. É preciso deixar que tremule, que sue frio, que as mãos gélidas alcancem o nada, para poder perceber a falta que faz ser mais coerente nas escolhas erradas.
Existem momentos onde ser feliz é mais uma coisa chata e sem sentido. É preciso abraçar a tristeza, pois ela que nos ajuda a movimentar rumo ao objetivo de sua não-existência, tentando entender que às vezes é melhor pedalar numa bicicleta ergométrica que em uma bicicleta comum.
Existem momentos onde o calendário pendurado na parede apenas te informa os dias que passam indo e vindo. É preciso deixar que passem, é preciso que passemos despercebidos pela vida, tal qual os dias, visto que em certos momentos, precisamos realmente não existir.
Existem momentos onde é necessário ser um assassino mental. É preciso matar aqueles pensamentos de matar alguém, pois temos que entender que é graças àquilo que nos fizeram que pudemos evoluir para jamais nos tornarmos o que aquela pessoa é.
Existem momentos onde toda música é barulho e todo barulho, um ruído insuportável. É preciso que haja qualquer coisa que não seja nem barulho e nem silêncio, talvez uma voz que fale algo que faça o mínimo de sentido quando não enxergamos sentido em nada, talvez algo que não seja sonoro.
Existem momentos que se desdobram em outros momentos, e que de tão ramificados e entremeados uns aos outros, confundem a mente e causam uma perda do corpo no tempo. É preciso que se perca no labirinto das lembranças ou nos becos e ruelas do pensamento, pois temos que entender que é somente na angústia da solidão que encontramos a alegria da própria companhia.

domingo, 10 de abril de 2011

A Barbárie Sem Barbie

Corte: Residência de um soberano. Gente, que rodeia habitualmente o soberano.
Povoação, em que este reside. O Governo de um paí­s, em relação aos de outros paí­ses: a corte de Madrid dirigiu uma reclamação à Itália. Pessoas, que rodeiam habitualmente outra, lisonjeando-a e procurando agradar-lhe. Edifício, onde está o parlamento.

Estava postergando falar sobre esse assunto há bastante tempo, mas sinto que mais do que nunca é preciso dissertar sobre este evento em que decoradores acham-se arquitetos e arquitetos atuam como decoradores – sem, em hipótese alguma menosprezar quaisquer das duas profissões, porém não queiram por favor dizer que ali é onde a arquitetura acontece, porque móveis dispostos não resumem essa profissão, apenas soma-se às milhares de outras atribuições dessa profissão.
É preciso ressaltar antes de tudo, que a Casa “Corte” é ao que parece, um evento meio Casas Bahia de Luxo, ou seja, por ser o maior das Américas e o segundo maior do mundo, sobrevive muito mais dos números expressivos e do marketing em si, do que da originalidade de seus produtos.
Quase como uma loja de móveis itinerante que em datas determinadas acontece em diversos lugares, e cujos produtos pouco divergem de região para região, esse evento é almejado por muitos arquitetos – o que seria cômico se não fosse trágico -, onde, junto com outros profissionais, delimitam seus “cômodos”, e se divertem como se estivessem de posso de um dos mais famosos produtos da Mattel: a desejada boneca Barbie.
Então, de posse desse personagem antenado com as tendências mercadológicas de consumo, recriam seu mundinho de fantasia cor de rosa – aqui, nos tons pastéis e terrosos -, acentuando para as crianças pobres que, se algum dia comprarem – se tornarem - a boneca, jamais terão seus acessórios. E o castelinho temático decorado então, muito menos.
E como um brinquedo desse cacife precisa de todo o aparato para ostentar sua vida modernosa, a Barbie em suas últimas edições controla sua casa por meio do iPad N, aplica formol nos pimentões para que fiquem eternamente lindos na bancada da cozinha, dirige um Fiat 500 estacionado em sua garagem com TVs de LED que transmitem coisas relacionadas a carros, das quais ela não entende bulhufas. Mas o mais legal é quando ela vai ao banheiro, pois sentadinha no vazo assistindo TV, conversa com o Ken deitado na cama, olhando pra “TeVer” em seu mais íntimo momento, já que o rasgo na parede e as divisórias de vidro te convidam a esse tipo de interação.
Não menosprezo em hipótese alguma o trabalho que deve ser escolher um Buda bem diferente para que não o encontremos em mais de um ambiente, como por exemplo encontramos os sofás pretos de couro, ou as poltronas diferentes do restante da sala. E também não estou falando daquele espelhão com moldura bordada, dourada, escorado na parede, nem dos livros de moda, arquitetura, viagens e vinhos que todas as pessoas do mundo sem exceção - seja na sala, no quarto ou no escritório - lêem.
A Barbie é americana, e para não perder suas raízes em qualquer parte das Américas que seu mundinho itinerante percorrer, faz questão de que nunca falte um quadro da Broadway, de NY, um croqui das Campbe’ll Soup, ou consagradas miniaturas dos pontos turísticos de suas últimas viagens ao país de origem.
Ao final elege-se a Rainha do Travertino Romano Bruto, o Rei da Lareira com Projeções de Fogo, e então reinam durante o evento, ostentados por súditos da mídia impressa, e seguidos por sua Corte nesse império do consumo do design para as pseudo-Barbies de carne e osso.
Elas, com seus espaços “vitrinizados”, nomeados com as várias atividades que a boneca exerce em sua vida múltipla, ressaltando sua realeza e nobreza, vêem converter o aglomerado de parcerias com os patrocinadores - materializados em “móveis e papéis de parede”-, em um catálogo de fotografias sem vida, vendido para que você possa também montar sua casinha de bonecas no estilo compre-você-mesmo.
Vai edição, vem edição e eu continuo pensando: “fazer arquitetura não é, definitivamente, fazer mostra de mobiliário”.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Perda de Massa Cinzenta, Uma Realidade Contemporânea

Anorexia Cerebral: é o comportamento persistente de uma pessoa em manter sua massa cinzenta abaixo dos níveis esperados para sua idade ou meio social em que vive, juntamente a uma percepção distorcida quanto ao seu próprio eu, que leva o indivíduo a enxergar-se como inteligente.
A pesar das pessoas ao redor notarem que o anorexico possui um   Q.I. questionável, que está muito fora de uma realidade cerebral aceitável, este nega sua falta de conhecimentos ou cultura e insiste na perda de neurônios.
A pessoa que desenvolve essa doença costuma utilizar meios muito difundidos para acelerar seu processo de “emburrecimento”: além de submeter-se a exercícios físicos intensos, despende grandes preocupações com a beleza e está em constante “pose para foto”. Possui um gosto musical duvidoso, acompanha as piores séries de TV, ama filmes dublados – preferencialmente os que possuam muito mais derrapadas que falas -, e vivem sob uma forte influência de festas de temporada.

Como é o paciente: o indivíduo anorexico é caracterizado fundamentalmente por suas escolhas. São elas que definem os níveis de emagrecimento do cérebro e empobrecimento de sua capacidade de raciocínio, que pode levar inclusive a uma mudança de círculo social, visto que este não conseguirá sequer manter um diálogo sensato com os demais. Dessa maneira, encontram-se aglomerados em grupos de 5 a 8, apertados em um carro qualquer, com um som ligado no máximo volume, o que faz com que fiquem impedidos de conversar e não precisem se preocupar em entender o que está além do volante e da lata de cerveja. Porém o número de indivíduos cresce conforme o local para onde vão.
Em geral os anoréxicos cerebrais não consideram seu comportamento distorcido, e se recusam a freqüentar ambientes ou enveredar-se por situações que exijam o mínimo de entendimento.
Como não se consideram “burros”, são capazes de falar desembaraçadamente, e convictamente para amigos, familiares e colegas de trabalho. Na maior parte do tempo em que entra algum assunto complexo e capaz de gerar horas de discussão sem conclusão, se o indivíduo estiver a fim de se mostrar caso note uma insuficiência em sua aparência no que tange chamar a atenção, ele provavelmente discutirá de forma mais incisiva que os demais, desembolando uma asneira atrás da outra, direcionando sua fala, até sair completamente do tema e desembocar em algo bobo e sem sentido.

A doença: não há uma idade média onde surjam sintomas de perda de identidade ou personalidade. Muitas vezes esse distúrbio começa por um uso excessivo de programas de domingo da TV aberta, rádios populares, etc. Talvez seja mais fácil entender a doença se você notar que a pessoa não possui algum livro, não sabe sequer o que quer dizer Usina Nuclear de Fukushima – de assuntos atuais -, desenvolve piadinhas idiotas ao invés de desenvolver o raciocínio em assuntos bacanas, não entende nada de política, religião, geografia, ou o mínimo entendimento de um pouco de cada coisa, pelo menos para saber discutir contra.

Tratamento: indicado apenas quando o indivíduo toma consciência de si mesmo e consegue entender o nível de magreza em que seu cérebro se encontra. A partir daí, precisará contar com a força de vontade para não freqüentar certos lugares, conversar com certas pessoas e ouvir certos tipos de música.
Por enquanto não há uma técnica especialmente eficaz. Forçar a alimentação cultural não deve ser feito de forma rotineira. Só quando o nível de desnutrição é ameaçador.
Talvez seja bom algumas doses de anti-depressivos em intervalos irregulares, como presenteá-lo com um bom CD, livro, ingresso para algum show, ou mesmo um café com poucas pessoas para trivialidades.

Como evitar a doença: pratique a frase "Para alcançar conhecimento, adicione coisas todo dia. Para alcançar sabedoria, elimine coisas todo o dia." Lao Tse